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Oração pela Paz: Papa reforça apelos a uma «resposta conjunta à pandemia»

Líderes religiosos de todo o mundo rezaram hoje, em Roma, pelas vítimas da Covid-19

Foi um encontro com vários atos e muitos protagonistas aquele que hoje aconteceu em Roma numa iniciativa da comunidade católica de Santo Egídio.

A início da tarde, na Basílica de Santa Maria de Aracoeli, no centro da ‘cidade eterna’, o Papa reuniu-se em oração com líderes religiosos cristãos, com destaque para o patriarca Ecuménico de Constantinopla e Heinrich Bedford-Strohm, bispo e presidente do Conselho da Igreja Evangélica na Alemanha.

«O ‘evangelho’ do salva-te a ti mesmo não é o Evangelho da salvação»

Na sua intervenção o Papa Francisco começou por afirmar que “rezar juntos é uma dádiva” e pediu que s cristão sejam “unidos, e mais fraternos”, rejeitando a “tentação de pensar só em defender-se a si mesmo ou ao próprio grupo” esquecendo e sendo indiferentes para outros.

“Quanto mais estivermos agarrados ao Senhor Jesus, tanto mais seremos abertos e ‘universais’, porque nos sentiremos responsáveis pelos outros. E o outro será o caminho para nos salvarmos a nós mesmos: cada um dos outros, cada ser humano, seja qual for a sua história e o seu credo, a começar pelos pobres, os mais parecidos com Jesus”, explicou.

No encontro de oração pela paz intitulado «Ninguém se salva sozinho – Paz e Fraternidade» Francisco centrou a sua intervenção no grito de escárnio que Jesus escuta na cruz, o célebre «Salva-te a Ti Mesmo» [de acordo com a tradução da Bíblia da Conferência Episcopal Portuguesa].

“Todos somos peritos em colocar os outros na cruz, contanto que nos salvemos a nós mesmos”, lamentou o Papa.

   

 

“Talvez nós também preferíssemos às vezes um deus espetacular em vez de compassivo, um deus poderoso aos olhos do mundo, que se impõe pela força e desbarata quantos nos querem mal. Mas este não é Deus; é o nosso eu. Quantas vezes queremos um deus à nossa medida, em vez de nos configurarmos nós à medida de Deus; um deus como nós, em vez de nos tornarmos nós como Ele! Mas, desta forma, preferimos o culto do eu à adoração de Deus”, explicitou.

Francisco lembrou que “o crescimento do culto do eu” faz-se, “alimenta-se e cresce” mediante “a indiferença para com o outro”.

“O «evangelho» do salva-te a ti mesmo não é o Evangelho da salvação. Antes, é o evangelho apócrifo mais falso, que coloca as cruzes aos ombros dos outros. Ao contrário, o Evangelho verdadeiro assume as cruzes dos outros”, sustentou.

A Cruz: Lugar de perdão e Fraternidade

No mundo de hoje o papa apontou “a falta de amor” como a “mais profunda” causa dos males pessoais, sociais, internacionais, ambientais” e apontou a cruz como o lugar de onde “brotou o perdão” e “renasceu a fraternidade”.

“Os braços de Jesus, abertos na cruz, assinalam uma mudança radical, porque Deus não aponta o dedo contra ninguém, mas abraça cada um. Pois só o amor apaga o ódio, só o amor vence completamente a injustiça. Só o amor dá espaço ao outro. Só o amor é o caminho para a plena comunhão entre nós”, acrescentou.

Francisco pediu para os cristãos a graça “de estarmos mais unidos” para poder “caminhar na senda da fraternidade” de modo a ser “testemunhas credíveis do Deus verdadeiro”.

A celebração evocou as vítimas das guerras, do terrorismo e da atual pandemia, rezando pela paz no mundo e pelos cristãos perseguidos.

Após esta oração, os representantes cristãos uniram-se a outros líderes religiosos e políticos, na Praça do Município de Roma, Capitólio, para uma cerimónia pelas vítimas da Covid-19.

Não ao terrorismo e ao radicalismo em nome da Religião

Na praça do Capitólio, onde se encontrou com os representantes de outras religiões Francisco lembrou o Documento sobre a Fraternidade Humana em prol da Paz Mundial e da Convivência Comum, assinado com o Grande Imã de al-Azhar, Ahmed al-Tayyeb, em 2019 e renovou a condenação aos atos “de terrorismo e radicalismo em nome da religião”.

“Olhando para trás, ao mesmo tempo que nos deparamos infelizmente, nos anos passados, com factos dolorosos como conflitos, terrorismo ou radicalismo, às vezes em nome da religião, temos também de reconhecer os passos frutuosos no diálogo entre as religiões”, afirmou.

Francisco sustentou que “como irmãos” os crentes das diferentes religiões se podem tronar em “artífices da paz”.

“o mandamento da paz está inscrito nas profundezas das tradições religiosas”. Os crentes compreenderam que a diversidade de religião não justifica a indiferença nem a inimizade. Antes pelo contrário, a partir da fé religiosa, é possível tornar-se artesãos de paz e não espectadores inertes do mal da guerra e do ódio”.

Para o papa “as religiões estão ao serviço da paz e da fraternidade” e não devem nunca “resignar-se perante a guerra,” mas “agirem mediante a força suave da fé para pôr fim aos conflitos”.

A Fraternidade como caminho: Ninguém se salva sozinho

Reforçando os seus apelos a uma resposta conjunta à pandemia de Covid-19, Francisco insistiu na ideia de que a Humanidade “viaja no mesmo barco” e ninguém pode “salvar-se sozinho”.

“Só nos salvamos juntos, encontrando-nos, negociando, desistindo de combater-nos, reconciliando-nos, moderando a linguagem da política e da propaganda, desenvolvendo percursos concretos para a paz”, explicitou.

Entre os responsáveis religiosos, o patriarca ecuménico de Constantinopla, Bartolomeu abordou a centralidade da “ecologia”, como um conceito unificador do mundo de hoje:

“ “A humanidade pode retomar o seu papel de guardiã e administradora da criação. Já não há lugar para o fundamentalismo, as injustiças sociais e económicas, hedonismo, egoísmo, desejo de dominação”.

Haim Korsia, rabino chefe da França, e o representante do grão-imã de Al-Azhar, Ahmed Al-Tayyeb, lembraram o professor de Educação Moral e Cívica decapitado na semana passada em França.

Ahmed Al-Tayyeb expressou a sua condenação ao ato pois “os preceitos da religião islâmica e os ensinamentos do profeta Maomé” não justificam “este pecaminoso ato criminoso” nem as posições de todos os que seguem esta “ideologia perversa e falsa”.

No final da cerimónia foi guardado um minuto de silêncio pelas vítimas da pandemia e de todas as guerras.

Foi lido e assinado o Apelo pela Paz 2020, onde os participantes apelam a uma rejeição da “linguagem da divisão, frequentemente apoiada por sentimentos de medo e desconfiança, e não adotem caminhos sem retorno. Pensemos conjuntamente nas vítimas. Existem tantos, demasiados conflitos ainda em aberto”.

O texto convoca as nações a uma ação comum pois “a guerra e a paz, as pandemias e os cuidados da saúde, a fome e o acesso aos alimentos, o aquecimento global e a sustentabilidade do desenvolvimento, os deslocamentos de populações, a eliminação do risco nuclear e a redução das desigualdades não dizem respeito apenas a cada nação individualmente”.

Educris|20.10.2020



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