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Bíblia Games, uma inovação em Vila d'Este

Numa escola com um contexto complicado, um professor de EMRC inovou e criou o “Bíblia Games” que já realizou a sua 9ª edição. Numa entrevista concedida durante a Semana Nacional da EMRC Eleutério Gomes conta-nos a forma como olha os alunos, a vida, o contexto escolar onde desenvolve a sua actividade, dos colegas e claro, a EMRC.

www.educris.com: Como surgiu a ideia de criar o "Bíblia Games"?

Eleutério Gomes: Queríamos apresentar aos Alunos a Bíblia, de uma forma lúdica e criativa, que fosse tudo menos secante, como a gente nova costuma dizer. E ano após ano esta atividade tem vindo a ser feita com bons resultados. Os Alunos usam o Novo Testamento nas aulas, aprendem a procurar os diferentes livros do NT, sabem o que é um capítulo, um versículo e aproximam-se assim da Palavra de Deus.

O Concurso Bíblia Games é uma atividade simples: no recreio da nossa Escola são dinamizados 26 jogos pelos Alunos do 8º e 9ºanos de escolaridade (o jogo do galo, da malha, corrida a 2, estica, petanca, mímica, etc); os jogadores são os Alunos do 2º Ciclo e do 7ºano (que formam equipas com 8 a 14 elementos); cada equipa permanece 15 minutos em cada jogo e começa por procurar no Novo Testamento a resposta a uma pergunta que lhe é entregue pelos dinamizadores. No final dos 10 jogos, vence o concurso a equipa que consegue somar mais respostas certas e o melhor comportamento.

 

www.educris.com: Há quantos anos de faz esta atividade?

Eleutério Gomes: Na manhã do dia 1 de Abril vamos realizámos a nona edição deste concurso, que começou e teve seis edições na Escola EB 2,3 Dr. Leonardo Coimbra, na Lixa.

www.educris.com: Qual a receção dos alunos a este desafio?

Eleutério Gomes: Os alunos gostam deste tipo de estratégias e atividades. Não podem é envolver muito texto, nem exigir muita escrita. Com o tempo, verifico que têm gosto em manusear o Novo Testamento e fazem perguntas: quem teve a ideia de dividir tantos livros em capítulos e versículos? (O trabalhão que deve ter dado!...) como é possível haver tantos géneros literários no NT? Como é que estes livros chegaram até nós? Porque é que temos tantas dúvidas sobre os autores da maioria dos livros? E por aí fora…

Até para mim tem sido uma surpresa gratificante, o interesse que vejo por parte dos discentes na realização deste concurso. Que implica imaginação e criatividade dos Alunos mais crescidos, pois são eles que tomam a iniciativa de inventar e dinamizar os jogos.

www.educris.com: Quantos alunos estão inscritos?

Eleutério Gomes: Este ano letivo temos 437 Alunos EMRC aqui na Escola EB 2,3 de Vila d’Este. Com trabalho e a ajuda do Espírito Santo, ainda temos alguma margem para crescer!...

 

www.educris.com: Há quantos anos dá aulas de EMRC e como começou a dar aulas de EMRC?

Eleutério Gomes: Já vou entrar na 44ª primavera de vida e na 17ª temporada letiva. A foto que aparece no meu Registo Biográfico de Professor EMRC mostra alguém com uma cabeleira farta, uma visão que já se perdeu da minha memória.

Como comecei a leccionar? Fui seminarista claretiano, abandonei a vida religiosa durante o terceiro ano de teologia porque não me sentia feliz, acabei por terminar o Curso de Ciências Religiosas meio empurrado pela namorada com quem hoje estou casado, fiz o estágio pedagógico, e tenho a felicidade de ainda hoje fazer algo de que gosto e pelo qual sou pago. Posso desta forma ganhar o pão de cada dia e alimentar os meus dois filhos. É um percurso muito semelhante a tantos colegas meus de trabalho.

www.educris.com:  Como é a realidade de Vila d'Este?

Eleutério Gomes: Difícil e milagrosa.

Difícil porque já havia crise económica por aqui antes de 2008. Vila d’Este é uma Urbanização que dá abrigo a quem chega de África e dos países de leste. São pessoas que chegam, permanecem algum tempo, mas voltam a partir. Olho para este aglomerado de betão e comparo Vila d’Este a uma reserva natural, onde as aves migratórias podem renovar forças a meio de um voo. Muitas das famílias dos nossos Alunos vivem situações de desemprego, grande carência económica, precariedade mesmo. Estou aqui vai para 3 anos e dou comigo a pensar que o amor tem dificuldade em resistir à austeridade e à pobreza. A família desestrutura-se, separa-se, os olhares são tristes… Há dois anos tínhamos Alunos com 21 nacionalidades e etnias, o que nem sempre é fácil “abrigar” num espaço escolar.

Estamos já a preparar o Encontro EMRC da nossa Diocese do Porto, para o qual convidamos os Alunos do 6ºAno e muitos não têm 2,50€ para se inscreverem no encontro. Acaba por ser um desafio, pois não podemos deixar em terra nenhum daqueles que nos foram dados!

Mas Vila d’Este é também um milagre, pois no meio de tantas dificuldades a generosidade e a partilha acontecem. Todos os anos fazemos três campanhas de solidariedade, uma em cada período letivo. Oferecemos neste Natal 100€ à AEPGA (associação que cuida dos Burros Mirandeses). Temos neste momento 165€ para oferecer à Associação Portuguesa Amigos Raoul Follereau, mas palpita-me que até à Páscoa vamos conseguir arredondar esse número, para cima. Os Alunos chegam à Aula EMRC e oferecem o que não gastaram na lojinha das guloseimas: 10, 20, 30 cêntimos, até a um máximo de 1€ por Aluno em cada campanha de solidariedade. O mundo muda para melhor se formos capazes de concretizar pequenos gestos de carinho. Muita gente pequena, fazendo pequenas coisas, em muitos lugares pequenos, pode mudar o mundo. – este provérbio africano é todo um lema de vida!

 

www.educris.com: Que papel tem a EMRC com a escola e com a comunidade.

Eleutério Gomes: Embora seja o único Professor EMRC na Escola de Vila d’Este, nunca me senti só. Faço parte de um grupo de Professores fantástico, que me têm ajudado muito. Alguns são Professores que trabalham na Escola há 20 anos, que todos os dias dão o seu melhor, apesar de todas as dificuldades, pois muitos dos nossos Alunos só gostam da Escola como espaço de recreio e convívio. São Professores que não desistem e é bom tê-los por colegas e amigos. Estão sempre disponíveis para acompanharem os Alunos EMRC quando saímos da Escola. A Direção da Escola também me dá rédea solta para concretizar todas as actividades que nos vêem à cabeça. Sinto que sou acarinhado por parte dos Alunos e seus Encarregados de Educação. Tenho sido feliz e estou muito grato a toda a Comunidade Educativa.

E temos a sorte de contar com a proximidade e ajuda do Padre Albino Reis, um homem infatigável, um missionário sempre disponível, que é o Pároco de Vilar de Andorinho e Vila d’Este. No dia 4 de Abril, pelas 21:15h, na novíssima Igreja de Vila d’Este, os Alunos das turmas do 6ºA, 8ºB, 8ºC e 9ºB (mais de 100 Alunos) vão apresentar o musical Os figos da Tia Miséria. Toda a Comunidade Educativa foi já convidada. Esta atividade só foi possível com a ajuda das Professoras de Educação Musical, as Maestrinas Cristina Pinho e Fernanda Silva; da contribuição da Professora Antónia Alves, a nossa artista plástica que construiu a figueira da Tia Miséria; da Professora Fátima Milheiro que tem dedicado horas a ensaiar os Alunos; do Professor Paulo Silva que fornece as plantas e flores para o cenário, ele que é o responsável pelo curso de jardinagem. É bom estar em Vila d’Este, apesar de todas as dificuldades.

Julgo que o papel da nossa disciplina na Escola e na Comunidade é o de fazer sobressair o melhor que cada um tem dentro de si. A esperança muda o inverno em verão, a escuridão em aurora, a tristeza em alegria.

 




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