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Fórum 2014: A mente dos adolescentes

Em semana de Fórum EMRC 2014 fomos ao encontro de Cristina Sá Carvalho, psicóloga, diretora do departamento de Catequese do SNEC e docente da Universidade Católica para, numa breve entrevista, lançarmos a sua intervenção que vai ter lugar no Fórum EMRC 2014 sob o tema "A mente ideológica dos adolescentes e a função da educação religiosa".

www.Educris.com: No próximo fórum EMRC 2014 vai trazer aos docentes uma reflexão sobre a mente ideológica dos adolescentes e a função da educação Religiosa. Como é a mente dos adolescentes no século XXI?

Cristina Sá Carvalho: "Mente ideológica" é um conceito que Eric Erikson usa para definir uma característica essencial da construção da identidade - a tarefa da adolescência - e que podemos associar ao processo mais global de construção do sentido da realidade.

A mente dos adolescentes, ou a sua personalidade em formação, como preferimos definir os psicólogos, surge do embate entre o que é estrutural na pessoa e o que é proporcionado pela cultura circundante. Do ponto de vista estrutural a adolescência começa com uma mudança drástica, o acesso a uma cognição capaz de maior abstração, atenta mas ainda incapaz compreender totalmente as alterações corporais proporcionadas pela puberdade, (como seja o despertar do desejo sexual), e sociais (procurar uma nova identificação intima porque o desejo sexual afasta o sujeito da referência anterior, os pais) que estão a ocorrer. Emocionalmente surge a grande mudança, a necessidade de reformular os laços que ligam o adolescente aos progenitores e que dá à adolescência a sua tonalidade depressiva, proporcionada por este processo de luto que é já não se ser uma criança, protegida pelos adultos de referência. Mas mesmo a necessidade de alteração dos laços com os pais tem um fundamento cognitivo, que é a compreensão de que se tem um passado (foi-se criança) e se caminha para um futuro (adulto, eventualmente), isto é, a tardia alteração na noção de tempo e temporalidade.

Mas como a adolescência é a única idade da vida criada pelas necessidades económicas da sociedade ocidental e, portanto, não ancorada num processo fisiológico, flutua muito de acordo com a sociedade. Sintetizando agora para desenvolver no Fórum, os adolescentes de hoje sofrem da fragilização da família e das instituições educativas, escola e Igrejas, pois tal como referiu o Papa Bento XVI, vivemos uma emergência educativa proporcionada por uma sociedade «líquida» (Baumman), que não se reconhece nem educa. Os adolescentes de hoje crescem sem referências sólidas, longe dos adultos (órfãos), entregues ao seu grupo de pares, que faz as vezes de mecanismo identificador, sem ter capacidade para isso, e mergulhados no isolamento dos gadgets e de muitas formas de entretenimento pobre e vazio, que resultam essencialmente da financeirização de todas as trocas sociais e da exploração dos fracos que daí resulta. Por falta de orientação moral - chamo-lhes «geração que mal há» - eternizam um egocentrismo infantil que os perturba também em termos intelectuais, pelo que a geração com maiores oportunidades educativas formais podem bem acabar menos inteligente do que os seus antepassados analfabetos. Mas a responsabilidade é dos adultos, a dimensão estrutural está lá sempre, a clamar por oportunidades para compreender o mundo e se compreender a si mesma.

www.educris.com : Qual o papel da EMRC na formação das novas gerações em contexto escolar?

 Cristina Sá Carvalho: Creio que EMRC e todas as disciplinas com objetivos semelhantes - à sua maneira, por exemplo, a filosofia, a literatura, a história - têm a faculdade de contrariar, numa lógica de proximidade educativa, de encontro entre as pessoas do professor e o aluno,  a liquidez de uma sociedade sem valores ou em dificuldades de os assumir e transmitir. É relevante, e um direito da pessoa, conhecer a Verdade, ser educada na Verdade, da qual não é possível excluir o Deusa encarnado em Jesus Cristo, que nos criou por amor e para construir um Reino sólido, ancorado no primado da lei, que é esse mesmo  amor e as disciplinas de Ensino Religioso Escolar dão um contributo decisivo na busca da Verdade mais elevada. Julgo que também contribuem para aliviar ou prevenir a cronopatia em que vivem muitos adultos, a alteração da relação da pessoa com o tempo, a que aludi anteriormente, e que centra o sujeito no presente, sem saber de onde vem e para onde vai. Na linguagem comum, dizemos que pessoas assim vivem uma adolescência eterna, o que não é um bom prognóstico para o indivíduo nem para a sociedade. Erikson também nos fornece uma leitura muito interessante e sólida a este respeito, que reservou para o Fórum, e que será completada e aprofundada, sob o ponto de vista teológico, pela intervenção do Dr.Juan Ambrósio.  

 www.educris.com: Qual a abordagem a ter, em contexto educativo, na formação da personalidade dos adolescentes?

 

Cristina Sá Carvalho: Educar: ser modelo e testemunha de uma forma adulta de habitar o mundo e desenvolver nos alunos um sentido crítico face às realidades com que se confrontam e que hoje, mesmo em muitas disciplinas escolares e contra o desejo dos professores, estão reduzidas a uns sound bytes semelhantes ao discurso dos publicitários. Quando se cresce tem de se ser ajudado a compreender de onde se vem - a herança cultural - e a encarar a realidade presente de forma criativa e inventiva, numa formulação do futuro em que se é capaz de combinar a leitura transformadora da ciência com os padrões de reflexão da filosofia e uma ética de respeito pela pessoa humana e as suas exigências de vida em profundidade. O ser humano é muito belo, muito complexo e muito frágil, algo que  educação não pode esquecer.

 

www.educris.com: Esteve presente ativamente na elaboração das metas  Metas Curriculares para o ensino básico da disciplina de EMRC. Como foi fazer parte deste trabalho e quais as grandes linhas de força das metas?

Cristina Sá Carvalho: As Metas são também para o Ensino Secundário. Tem sido um trabalho muito desafiador e muito complexo, mas que se realiza também com grande entusiasmo e grande prazer, numa equipa central muito competente e conhecedora das teorias e das práticas, e rodeados de muitos contributos válidos e especializados. Trata-se de um esforço multidisciplinar que faça evoluir o muito de bom que se experimentou com o Programa da edição de 2007, para uma reformulação/releitura capaz de aprofundar o contributo do religioso para a tarefa essencial, que enfrentam os alunos, de construir uma vida com sentido, uma vida boa, elevada e transformadora. Naturalmente, esse esforço faz-se a partir da Boa Nova de Cristo, que chega até nós através da Palavra e do Magistério. No Fórum teremos oportunidade de explicar melhor de onde partimos e como operacionalizámos estas intenções, ao serviço das famílias, dos alunos e dos seus professores, mas a grande referência está nas instruções pastorais da Conferência Episcopal Portuguesa e do Magistério universal dedicado à escola e à educação.

 




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