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«A escola deve ser lugar de contracultura», Miguel Santos Guerra

Especialista espanhol considerou “central” o lugar da escola na construção do projeto europeu e pediu capacidade de ser contracultura

Miguel Santos Guerra, pedagogo e especialista em avaliação, disse hoje em Fátima que “perante o modelo social neoliberal” a escola “deve ser contracultura”. O especialista em educação considerou que isso é, muitas vezes, “difícil” e muitas instituições “se deixam levar pela corrente” correndo o risco de “deixarem de ser necessárias”.

“Só os peixes mortos são levados pela corrente”, alertou.

Perante duas centenas e meia de docentes das Escolas Católicas Portuguesas, o pedagogo espanhol sustentou que o lugar da escola deve ser entendido como “o lugar onde se constrói a sociedade” e não apenas onde “se depositam crianças para que aprendam um conjunto de conhecimentos”.

“A escola é um espaço de instrução, de socialização, que tem de ser capaz de se distanciar de um mero doutrinamento”.

Perante os princípios da sociedade atual, que “colocam grandes desafios às escolas” o especialista em pedagogia desafiou as escolas a “reajustarem as suas funções para além da simples instrução do conhecimento que hoje se atomizou e se encontra muito para lá da escola”.

“Hoje o que é pedido à escola é a de dar critérios para que os alunos possam discernir que tipo de conhecimento tem diante de si e que influencias estão por detrás dele”, sustentou.

Prioridade à formação e seleção de professores

Num momento de grande mudança no universo educativo a nível global o Miguel Santos Guerra sustentou a necessidade de “uma seleção muito clara dos profissionais que vão formar as novas gerações”.

“Durante alguns anos, e a mentalidade ainda persiste, pensou-se que ia para professor quem não sabia fazer mais nada. Isto é um problema porque se deteriora o valor e a complexidade da tarefa educativa”.

Hoje é necessário estar atento à “seleção, formação e a organização das escolas” e “não se pode continuar a dar tão pouca estabilidade ao corpo docente para desenvolver projetos. Não pode continuar a acontecer que num ano se crie um projeto e no ano seguinte metade dos docentes se vão embora”.

Para Miguel Santos Guerra a educação não deve ficar “apenas na escola, mas deve ser uma tarefa de todos, começando na família, e passando pelos próprios media na sua missão de educar através dos modelos que são aí apresentados”.

Uma avaliação que ajude a construir cidadãos

O autor de «Ensinar o ofício de aprender» considerou que é urgente uma melhoria no foco da avaliação nas escolas que esteja para lá da competição e seja capaz de abrir um “caminho ético na avaliação”.

“Hoje a avaliação mostra a perversidade da cultura neoliberal. Cada um tem de atingir determinado objetivo sem pensar no que se passa com os demais. A avaliação é hoje individualista, como reflexo da sociedade”, considerou.

Miguel Santos Guerra denunciou um ensino que hoje “atira para cima dos alunos a ideia de que já não basta ser a melhor versão de si mesmo, mas ser melhor que todos os outros. O Relativismo moral faz com que os fins justifiquem os meios”.

A situação é “tão grave” que “a obsessão pelos resultados faz com que ao chegarem a casa os pais apenas perguntem aos filhos pelas suas avaliações”.

“Temos que nos centrar mais no caminho que se faz para chegar à nota e na dimensão ética da avaliação, considerou.

Futuro do projeto Europeu passa pela Educação

Numa altura em que o projeto europeu atravessa dificuldades nascidas por impasses e indecisões críticas o especialista em educação considerou que o segredo para o futuro da europa passa “pela escola enquanto motor da transformação”.

“A sociedade muda com a educação, já o afirmava Nelson Mandela. Só o poderá ser se lá existir mais do que instrução. São os cidadãos que de lá saem que vão desenvolver, transformar e governar a sociedade” e por isso é fundamental “ajudá-los a pensar criticamente para que sejam capazes de contruir uma sociedade mais justa e mais solidária. De contrário voltaremos à lei da selva”.

“Que cidadãos vão sair formados das escolas para enfrentar estes novos desafios?”, questionou.

Da parte da tarde os docentes participam num workshop subordinado ao tema «a avaliação como aprendizagem».

Educris|28.06.2019

 

 



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