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Porto: Projeto trouxe "maior capacidade de fazer silêncio" à comunidade

No nosso país vários são já vários os projetos de educação para a Interioridade que as escolas católicas tem desenvolvido. No dia 29 de abril o Colégio do Rosário, no Porto, apresentou a sua implementação a mais de 150 docentes de todo o país.

Fomos perceber melhor, junto da professora Sandra Santos e Paulo Costa, como se implementa um projeto deste tipo e quais as dificuldades e certezas que a experiência tem trazido à escola.

 

Educris: Como surgiu a ideia de criar um projeto de educação da interioridade no vosso colégio?

Paulo Costa e Sandra Santos: A ideia partiu de uma Pós-Graduação realizada na Universidade católica Portugues (UCP), na qual o Paulo Costa participou e, no âmbito da realização de um projeto baseado no desenvolvimento da competência espiritual, no final da formação o mesmo foi apresentado ao diretor dedagógico, no intuito de o implementar junto dos alunos.

Inicialmente o projeto visava os alunos do pré-escolar (5 anos), de modo a preparar a transição para o 1º CEB, no qual existem aulas de Educação Moral e Religiosa Católica (EMRC). Posteriormente a Direção Pedagógica fez-nos o desafio de implementar o projeto em todos os níveis de ensino, do 1º CEB ao Secundário.

No projeto estão envolvidos 4 professores que abrangem os diferentes níveis de ensino.

 

Educris: No início do projeto como reagiram os professores (cargas letivas, programas e exames, burocracias e faltas de tempo) e os alunos (novidade, risota, desprezo, entusiasmo?).

Paulo Costa e Sandra Santos:O projeto foi apresentado a toda a comunidade educativa, num primeiro momento aos professores e restantes colaboradores do colégio e, num segundo momento, aos Encarregados de Educação.

No projeto nunca se verificou qualquer problema que pudesse dificultar o normal desenvolvimento das atividades letivas, uma vez que desde o seu embrião ficaram definidos os moldes em que o mesmo funcionaria.

Desde a primeira fase que as reações foram muito positivas e indicadoras de uma necessidade sentida por todos.

No que diz respeito especificamente aos alunos, a sua abertura e o seu envolvimento neste projeto superou as nossas expectativas. Os alunos manifestaram entusiasmo pelas dinâmicas e desafios apresentados, envolvendo-se, na sua grande maioria, com seriedade nos mesmos. 

Educris: Como está organizado o projeto na vossa instituição (uma semana de educação da interioridade)

Paulo Costa e Sandra Santos: O projeto desenvolve-se integrado na disciplina de EMRC, ao longo do ano letivo. A disciplina de EMRC, no colégio, é lecionada por dois professores, por turma desdobrada, num registo semestral. Assim, enquanto um aborda os conteúdos específicos de EMRC, o outro desenvolve o projeto de Interioridade como complemento. Este caráter complementar leva à existência inevitável de um diálogo entre o que comporta a disciplina e o projeto.

Educris: Há quanto tempo tem o projeto a funcionar? Que diferenças notam na comunidade educativa? Que mais valia traz o projeto à formação dos mais novos?

Paulo Costa e Sandra Santos:O Projeto funciona desde o ano letivo 2014/2015. Está, por isso no seu terceiro ano de implementação.

Observamos que o impacto que tem causado nos alunos se tem estendido pela comunidade educativa, pelo que, na Semana de EMRC propomos também dinâmicas de Interioridade abertas aos professores e colaboradores. A sua participação tem revelado ecos positivos e a solicitação para se proporcionar esses momentos ao longo do ano e não apenas nessa Semana Temática.

No que respeita aos alunos, os que já acompanham o projeto desde a sua implementação, é notório o aumento da sua capacidade de se silenciar, destaca-se o exemplo dos alunos do 1º CEB (sobretudo os do 4º ano) que, muitas vezes, pedem para apresentar uma visualização/meditação escrita por si; por outro lado há ecos de que muitos dos alunos do 1º CEB têm momentos específicos em casa para, por iniciativa própria, colocarem em prática as dinâmicas realizadas nas sessões de Interioridade, sobretudo as ligadas à vivência do Silêncio e da Respiração Consciente.

No que respeita aos alunos do Secundário, observamos uma abertura para a prática do Silêncio, da Reflexão e da Meditação. Tal como acontece com os mais novos, há também ecos relativos à implementação das práticas quer em casa quer noutros espaços do colégio, nomeadamente como preparação para a realização de testes/exames (controle da ansiedade, concentração…)

Na globalidade, o Projeto traz aos alunos a possibilidade de terem um tempo e espaço de “paragem”, de se centrarem em si mesmos e de enraizamento; por outro lado, permite ainda trabalhar a atenção/concentração, o Silêncio (vivenciando os benefícios do mesmo); o desenvolvimento da criatividade e da expressão própria; e proporciona ainda o “sair de si”, “ir mais além…”, atribuindo-lhes, deste modo, as “ferramentas” para a abertura à transcendência/Transcendência.

Educris: Algumas questão que gostassem mesmo de destacar do projeto?

Paulo Costa e Sandra Santos:A primeira questão que gostaríamos de destacar prende-se a nós mesmos, professores. Abraçar um projeto de Interioridade é, em primeiro lugar, lançar o desafio a nós mesmos; os conteúdos, bem estudados, podem facilmente ser “passados”, mas no que toca a vivências, a experiências mais profundas, ou se sente e se vive, ou tudo é em vão.

Mais do que um projeto assente em conteúdos, em planificações, etc… este é, sem dúvida, um projeto de vida, que nos convida a mergulharmos em nós mesmos e a estarmos bem connosco próprios, para proporcionar também a possibilidade desse caminho de descoberta aos que nos são confiados.

Se ser professor é, já por si, um desafio à capacidade de nos reinventarmos permanentemente, neste projeto essa capacidade constitui um desafio maior; conseguir “agarrar” os alunos, surpreendê-los, cativá-los, criar um espaço de envolvência onde muitas vezes as suas e nossas fragilidades são assumidas, exige do professor a capacidade de escuta, de acolhimento, de aceitação sem criar qualquer juízo de valor, criando assim um ambiente de confiança mútua.

A própria postura corporal do professor e dos alunos (sentados em almofadas/ bancos de meditação – tipo Taizé -) coloca-os numa situação de igualdade enquanto Ser Humano em crescimento.

Imagem: Sala da Interioridade no Colégio do Rosário, Porto



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