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«Orientações» são sinal da «comunhão eclesial», Cristina Sá Carvalho

Coordenadora da catequese no Secretariado Nacional da Educação Cristã destaca, em entrevista, as três questões que presidiram à elaboração do documento orientador

Educris: Que pretendem os responsáveis pela Catequese com este documento de “Orientações”?

Cristina Sá Carvalho: Exatamente o que refere o título: ajudar as comunidades de fé a retomar as atividades de Catequese com o máximo de normalidade numa situação social e sanitária particularmente grave e incerta. E fazê-lo a uma voz, em pela unidade eclesial, com a preocupação de ter presente, por um lado, toda a variabilidade de situações pastorais no terreno, e por outro, o dever cívico de cumprimento integral das indicações das autoridades sanitárias e a possibilidade de estas evoluírem com o tempo, requerendo uma atenção e uma adaptação permanente da nossa parte.

Educris: Num tempo de pandemia quais as intuições e as orientações mais urgentes para a catequese de cada diocese e cada paróquia.

Cristina Sá Carvalho: Sobre as orientações de cada diocese e paróquia, em concreto, não me posso pronunciar, pois respondem aos seus responsáveis diretos, como é próprio do entendimento do que é uma Igreja local e do que é uma paróquia. No conjunto das propostas que o documento das Orientações indica, há três questões que nos mereceram uma reflexão  mais cuidadosa e que sugerem uma adaptação local mais sensível e destacada: a natureza da catequese, enquanto promotora ativa do acesso pessoal de cada catequizando ao encontro vivo com Jesus Cristo por meio da experiência e educação proporcionados pela comunidade de fé – a comunhão com Cristo e com os outros – o que supõe um encontro qualificado entre as pessoas, de “participação”, ativa; a importância da família – nuclear e alargada – no processo de transmissão da fé, tanto dos adultos para as crianças e os adolescentes como da capacidade destes últimos agirem evangelizadoramente no seu meio próximo; a inquietação que nos provoca a possibilidade de novos confinamentos, porventura regionais ou locais, e por isso, a necessidade de estarmos preparados para continuar a manter um diálogo de fé vivo e construtivo com todos os catequizandos numa situação de maior ou total distanciamento físico.

Educris: O documento aborda as questões das festas presentes nos diferentes catecismos. Como podem os párocos desenvolver estes momentos?

Cristina Sá Carvalho: O documento das orientações apela a que, honrando os sacrifícios e as dificuldades que vivemos com a pandemia e, sobretudo, o dever de misericórdia e acompanhamento que a Igreja assume perante o sofrimento e a inquietação humanos, se faça uma leitura essencialmente teológica, pastoral e espiritual das celebrações que marcam o itinerário catequético como momentos especiais de aprofundamento da fé e de conversão. A fé cristã é uma fé comunitária, o evangelho é uma proposta de vida na alegria do encontro com o Caminho, a Verdade e a Vida, e temos de saber permanecer fiéis a este legado em todas as circunstâncias, principalmente, diria eu, nas mais desafiadoras, mais críticas, mais exigentes. Julgo que nenhum cristão amadurecido na sua fé deixa de pensar, em chave de leitura pascal, que aquilo que vivemos hoje não é só uma enorme provação global, mas também um momento de por à prova a qualidade da nossa fé e a possibilidade de sermos fermento e sal de um mundo novo, melhor, mais belo e mais justo, a construir.

Educris: Outro dos pontos em evidência é o acompanhamento da família, um projeto acarinhado pela catequese em Portugal e que passa pela catequese familiar. Este pode ser um momento de transmissão da fé recuperando as igrejas domésticas?

Cristina Sá Carvalho:  De facto, o modelo de Catequese Familiar que temos proposto parte exatamente dessa tese da recuperação do sentido da Igreja doméstica, tal como estudado pelo P. Vasco da Cruz Gonçalves, na sua investigação de doutoramento, e com quem trabalhei no seu desenvolvimento. O que vimos nestes últimos meses é que há muitas famílias que têm claro esse sentido de Igreja doméstica e que, no meio das muitas preocupações que vivemos, o aprofundaram, partilharam e lhe deram uma cor absolutamente bela, inovadora, criativa, no pleno sentido do termo. Outras, ainda não fizeram esse caminho, mas sentimos que estão cada vez mais disponíveis para serem convidadas a fazê-lo, acompanhadas nessa descoberta essencial, independentemente das suas circunstâncias pessoais. Seja como for, o confinamento e o difícil desconfinamento em que estamos emersos, destacaram a necessidade sentida por todos quantos trabalhamos a catequese de estabelecer mais e melhores pontes com as famílias, de as incluir e de as envolver no processo de catequização. Graças a Deus, como há anos que levamos a sério esta reflexão e esta prática, também temos o projeto de Escola Paroquial de Pais, um modelo menos complexo de implementar do que a Catequese Familiar, que sempre propusemos a todas as paróquias e creio que, agora, terá um grande acolhimento porque a sua pertinência se tornou evidente. Há, ainda, duas coisas que gostava de destacar nestes projetos e que descobrimos reiteradamente com a prática: a alegria absolutamente surpreendente e contínua das crianças pelo facto de os pais participarem com elas na catequese; o facto de ser indispensável contactar pessoalmente as famílias, uma a uma, para as convidar a participar. Quando tudo é assim preparado, com o detalhe de um encontro humano, único e precioso, que nos parece um privilégio viver, a adesão das famílias corresponde inteiramente.

Educris: A componente digital volta a estar em destaque como aliás o novo Diretório advoga. Que formação para os catequistas nestas áreas e de que modo pode acompanhar os mais novos virtualmente?

Cristina Sá Carvalho: A catequese, como uma dimensão essencial do processo de evangelização, tem uma vertente importantíssima não só de comunicação da fé, mas de inculturação. Neste sentido, a catequese tem de compreender onde estão as pessoas, o que é que as move e lhes interessa, que linguagens elas adotaram, como perfilam o seu futuro e em que moldes. Neste sentido, o Diretório para a Catequese fala de conversão e de plenificação da existência, como não podia deixar de ser, mas também de educar para uma “mentalidade de fé conforme ao Evangelho” (DpC 70). Ora, essa educação na fé terá de supor a natureza da pessoa, a sua mentalidade, que é hoje, culturalmente, uma mentalidade muito construída e vivida em torno da comunicação virtual e essa experiência, muito envolvente e profunda, começa muito cedo na vida, com consequências claramente limitadoras para o desenvolvimento intelectual, emocional, social e, logo, espiritual, da pessoa. É pois, algo que está aqui, que todos usamos, mais ou menos, num ritmo quotidiano, mas os cristãos não confundem a inteligência artificial nem os algoritmos que nos fazem ofertas de consumo personalizadas com o nascimento do homem novo (cf.Ef 4, 24) e a transformação espiritual pessoal (cf.Rm 12,2), conforme lembra o Diretório (n.76). Portanto, do ponto de vista da educação e da evangelização, o que as tecnologias da comunicação nos trazem são excelentes oportunidades e grandes riscos, numa balança que ainda não pudemos calibrar devidamente. Mas temos de estudar estas questões em profundidade, recorrendo a bons especialistas, temos de as acompanhar e de acompanhar as pessoas que estão “nelas” e vamos certamente fazer caminho de presença e de utilização, com sensatez e sem adulterar o sentido e a missão da catequese. O que vimos acontecer na “digitalização” da mensagem catequética, com o confinamento, foi um gesto generoso de muita gente boa, que não deixou que a catequese parasse e conseguiu, em grande parte, que se mantivesse presente nas crianças e nos adolescentes e nas famílias, mas, como referiu um dos nossos diretores diocesanos na nossa última reunião de trabalho, sem invalidar o bem que foi feito, não foi catequese, tal como o que fizeram os professores, não foi escola. O Diretório reafirma algo que já nos vem das primeiras comunidades cristãs: ser comunidade! A comunidade eclesial é o lugar “em que a experiência de Deus se torna comunhão e partilha” e a liturgia apoia-se na interação dos sentidos e na comunicação (DpC 372). Esta questão deve ficar absolutamente clara e é nesse contexto que acompanharemos os catequistas na preparação que precisam para acompanhar os seus catequizandos num eventual novo confinamento e, mais permanentemente, na atualização das modalidades de anúncio do Evangelho para a linguagem das novas gerações (DpC 370). Precisamos todos de ser educados para os media, para entendermos os efeitos da globalização digital na formação das mentalidades, para ajudar as pessoas a aspirar à Verdade e à Liberdade, como corresponde à sua natureza de filhos e de filhas de Deus. Certamente uma formação “técnica” é útil e poderá ter lugar, se os diretores diocesanos assim o entenderem, e vamos usar os canais digitais para continuar a fazer formação de adultos mas, relativamente às novas tecnologias e a todo o universo da cultura contemporânea, a  formação sempre mais necessária é aquela que nos recorda e que nos responsabiliza pela inalienável dignidade da pessoa humana.

Educris|20.07.2020

Imagem: Luís Santos



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