«Os laços que se tecem na Web», padre Luís M. Figueiredo Rodrigues

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A Igreja, que se entende como Povo de Deus, sabe-se peregrina, por isso o caminhar em conjunto é uma das suas mais ricas e expressivas experiências. Normalmente, o caminhar em conjunto transforma-se numa forte experiência de amizade e de formação da identidade. São experiências que deixam marca, o Êxodo é disso testemunho eloquente.

O desenvolvimento tecnológico persegue o objetivo de permitir que um maior número de pessoas, e num menor espaço de tempo, tenha acesso a um cada vez maior número de recursos. Veja-se o desenvolvimento dos transportes, permitiram que cada vez mais pessoas viajassem para destinos distantes, de modo mais cómodo e a preços cada vez mais reduzidos. O foco deixou de estar no modo como se viaja ou caminha, para se centrar apenas no destino. O que se tem de fazer para chegar até lá é um “contratempo” que há que tentar superar. Ainda no âmbito dos transportes, a privatização dos espaços, dotando-os de todas as comodidades é um caminho sem retorno. Veja-se o exemplo do automóvel, onde só a muito custo deixa de estar apenas uma pessoa por veículo, porque ninguém se quer privar da sua comodidade, articular horários, partilhar recursos. Mas a experiência da caminhada confirma que é nos laços que se criam ao fazer o caminho que a meta ganha um sabor mais apurado. O destino tem o sabor que tem porque se fez o caminho até ele.

Queremos com isto mostrar que as tecnologias facilitam o acesso, mas não o encontro. No caso das tecnologias digitais, ao desmaterializar o espaço, o caminho que cada pessoa faz é solitário, apenas com a mediação dos dispositivos conectados à Web, a maior parte das vezes o smartphone. É por isso que muitas vezes não se procura um percurso agradável com um grupo de amigos, mas sim um local com boa cobertura de wifi. Os lugares que se habitam e nos quais se realizam os encontros interpessoais deixaram de ser apenas os espaços físicos, para se tornarem cada vez mais os écrans.

Vem isto a propósito do tempo que estamos a viver, com o confinamento das nossas vidas quase só ao nosso lar. A família alargada, o grupo de amigos e, em muitos casos, até o trabalho só estão acessíveis através da Internet. Esta tornou-se o meio através do qual os indivíduos se podem relacionar, continuando a participar em projetos comuns, partilhando sonhos, inquietações, soluções e entusiasmos.

Na Igreja católica, uma das descobertas mais interessantes do Vaticano II foi a de que todos os fiéis deveriam, a seu modo, participar na vida eclesial: ser ativos e cooperantes. Se calhar, foi na liturgia onde esta participação foi melhor conseguida. Contudo, há muitos outros âmbitos onde mais do que falar e dizer, é pedido aos fiéis que, sobretudo, oiçam e escutem. Esta lacuna é muito evidenciada com a utilização que se faz dos recursos da Web 2.0. A participação dos crentes na vida da Igreja, através dos média, tem duas vias: ou muito baseada na simpatia e na identificação emocional, que redunda em rápidos e numerosos likes e partilhas; ou através do diálogo, com o qual se pode alcançar uma maior autoconsciência do seu ponto de vista de cada membro e um enriquecimento recíproco. A evidência demonstra que há a preocupação aritmética da utilização dos meios, mas não tanto da proposta de espaços onde possam florir e desenvolver-se relações verdadeiras e amistosas. É preciso um esforço consciente para se contruírem laços entre os membros da comunidade, quer na sua dimensão física, quer virtual.

A amizade surge sempre, mas sempre, do diálogo, de conversas tranquilas onde se partilham as vidas e constrói uma história comum, transformada numa narração que se cria e recria ao longo do tempo. Toma-se consciência que a palavra tem a função de criar presença, deixar lastro, a marca do indivíduo. Por isso são criteriosamente escolhidas, para que o seu autor se expresse o melhor possível e tenha em conta o que essas mesmas palavras vão suscitar no seu interlocutor ou interlocutores. A palavra surge como uma extensão do indivíduo e têm o peso daquilo que ele deseja partilhar.

Percebe-se agora que uma presença digital de fisionomia cristã precisa de ter, antes de mais, um projeto comum, construído através do diálogo entre todos os membros da comunidade, onde os pastores têm a sua missão imprescindível de presidir na caridade. Só assim se pode almejar que, conscientemente, os membros das comunidades eclesiais se comprometam na virtualização da sua experiência crente e façam da Web, também, um espaço de diálogo e de encontro.

Luís M. Figueiredo Rodrigues

 

 



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