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Francisco escreve sobre a Europa e os seus "sonhos" para o velho continente

Francisco escreveu hoje uma carta ao secretário de Estado, cardeal Parolin, por ocasião do 40º aniversário da Comissão dos Episcopados da União Europeia (COMECE), do 50º  aniversário das relações diplomáticas entre a Santa Sé e a União Europeia e do 50º aniversário da presença da Santa Sé como Observador Permanente no Conselho da Europa.

Nela o papa lembra o "sonho" que esteve na base do projeto europeu" e apresenta os seus "sonhos para o continente" deixando o desafio: "Europa, volta a encontrar-te".

 

Ao Venerado Irmão
Cardeal PIETRO PAROLIN
Secretário de Estado

Neste ano, a Santa Sé e a Igreja na Europa celebram alguns aniversários significativos. De facto, há cinquenta anos, concretizou-se a colaboração entre a Santa Sé e as Instituições Europeias surgidas depois da II Guerra Mundial, através do estabelecimento das relações diplomáticas com as Comunidades Europeias (então assim designadas) e a presença da Santa Sé como Observador no Conselho da Europa. Depois, em 1980, nasceu a Comissão dos Episcopados das Comunidades Europeias (COMECE), na qual tomam parte através dos respetivos delegados todas as Conferências Episcopais dos Estados membros da União Europeia, com o objetivo de favorecer «uma colaboração mais estreita entre os referidos Episcopados, no que diz respeito às questões pastorais relacionadas com o desenvolvimento das competências e atividades da União».[1] Este ano celebrou-se também o LXX aniversário da Declaração Schuman, um facto de importância capital que inspirou o longo caminho de integração do Continente, permitindo ultrapassar as hostilidades geradas pelas duas guerras mundiais.

Inspirado por estas ocorrências, o Senhor Cardeal tem programado num futuro próximo significativas visitas às autoridades da União Europeia, à assembleia plenária da COMECE e às autoridades do Conselho da Europa; tendo em vista tais visitas, julgo necessário partilhar consigo algumas reflexões sobre o futuro deste Continente, que me é particularmente querido não só pelas origens familiares, mas também pelo papel central que o mesmo teve e creio que deverá continuar a ter, embora com modulações diversas, na história da humanidade.

Tal papel torna-se ainda mais relevante no contexto da pandemia que estamos a atravessar. De facto, o projeto europeu surge como vontade de pôr termo às divisões do passado; nasce da consciência de que, juntos e unidos, somos mais fortes, que «a unidade é superior ao conflito»[2] e que a solidariedade pode ser «um estilo de construção da história, um âmbito vital onde os conflitos, as tensões e os opostos podem alcançar uma unidade multifacetada que gera nova vida».[3] Neste nosso tempo que «dá sinais de regressão»,[4] prevalecendo cada vez mais a ideia de proceder sozinhos, a pandemia é como uma encruzilhada que obriga a tomar uma opção: ou prosseguimos pelo caminho embocado no último decénio que aparece animado pela tentação da autonomia, esperando-nos mal-entendidos, contraposições e conflitos cada vez maiores; ou redescobrimos o caminho da fraternidade, que sem dúvida inspirou e animou os Pais fundadores da Europa moderna, a começar precisamente por Robert Schuman.

Nas notícias europeias dos últimos meses, a pandemia fez sobressair tudo isto: não só a tentação de proceder sozinhos, procurando soluções unilaterais para um problema que ultrapassa as fronteiras dos Estados, mas também, graças ao grande espírito de mediação que carateriza as Instituições Europeias, o desejo convicto de percorrer o caminho da fraternidade, que é também caminho da solidariedade, pondo em ação criatividade e novas iniciativas.

Mas, os passos dados precisam de se consolidar, para evitar que os impulsos centrífugos retomem força. Por isso, hoje, ressoam mais atuais do que nunca as palavras que São João Paulo II pronunciou no Ato Europeísta de Santiago de Compostela: Europa «volta a encontrar-te. Sê tu mesma».[5] Num tempo de mudanças bruscas, corre-se o risco de perder a própria identidade, especialmente quando faltam valores compartilhados sobre os quais fundar a sociedade.

Assim, gostaria de dizer à Europa: Tu, que foste uma forja de ideais ao longo dos séculos e agora pareces perder o teu ímpeto, não te detenhas a olhar o teu passado como um álbum de recordações. Com o tempo, até as mais belas recordações se atenuam, e acabamos por deixar de as lembrar. Mais cedo ou mais tarde damo-nos conta de que se esfumam os próprios contornos do rosto, sentimo-nos cansados e amofinados na vivência do presente e, com pouca esperança, ao olhar para o futuro. Depois, sem o ímpeto do ideal, descobrimo-nos frágeis e divididos, mais inclinados a dar voz às lamentações e a deixar-nos atrair por quem faz das lamentações e da divisão um estilo de vida pessoal, social e político.

Europa, volta a encontrar-te! Volta a encontrar os teus ideais, que têm raízes profundas. Sê tu mesma! Não tenhas medo da tua história milenária, que é uma janela para o futuro mais do que para o passado. Não tenhas medo da tua necessidade de verdade que, desde a Grécia antiga, abraçou a terra realçando as interrogações mais profundas de todo o ser humano; da tua necessidade de justiça que se desenvolveu a partir do direito romano e, com o tempo, se tornou respeito por todo o ser humano e pelos seus direitos; da tua necessidade de eternidade, enriquecida pelo encontro com a tradição judaico-cristã, que se espelha no teu património de fé, arte e cultura.

Hoje, enquanto muitos se interrogam desalentados sobre o futuro da Europa, há tantos que a olham com esperança, convencidos de que ela ainda tem algo a oferecer ao mundo e à humanidade. É a mesma confiança que inspirou Robert Schuman, ciente de que «o contributo vital que uma Europa organizada pode dar à civilização é indispensável para se manter relações pacíficas».[6] É a mesma confiança que podemos ter também nós, a partir de valores partilhados e radicados na história e cultura desta terra.

Então que Europa sonhamos para o futuro? Em que consiste o seu contributo original? No mundo atual, não se trata de recuperar uma hegemonia política ou uma centralidade geográfica, nem de elaborar soluções inovadoras para os problemas económicos e sociais. A originalidade europeia reside, antes de mais nada, na sua conceção do homem e da realidade, na sua capacidade de iniciativa e na sua solidariedade operosa.

Assim, sonho uma Europa amiga da pessoa e das pessoas. Uma terra onde seja respeitada a dignidade de cada um, onde a pessoa seja um valor em si mesma e não o objeto dum cálculo económico nem uma mercadoria. Uma terra que defenda a vida em todos os seus momentos, desde o instante em que surge invisível no ventre materno até ao seu fim natural, porque nenhum ser humano é dono da sua própria vida ou da dos outros. Uma terra que favoreça o trabalho como meio privilegiado para o crescimento pessoal e a edificação do bem comum, criando oportunidades de emprego especialmente para os mais jovens. Ser uma Europa amiga da pessoa significa promover a sua instrução e desenvolvimento cultural; significa proteger os mais frágeis e débeis, especialmente os idosos, os doentes que carecem de tratamentos custosos e as pessoas com deficiência. Ser uma Europa amiga da pessoa significa defender os direitos, mas também lembrar os deveres; significa recordar que cada um é chamado a prestar a sua própria contribuição à sociedade, pois ninguém é um universo à parte e não se pode exigir respeito por si mesmo, sem respeito pelos outros; nem se pode receber, se ao mesmo tempo não se está disposto também a dar.

Sonho uma Europa que seja uma família e uma comunidade. Um lugar que saiba valorizar as peculiaridades de cada pessoa e de cada povo, sem esquecer que estão unidos por responsabilidades comuns. Ser família significa viver em unidade, valorizando as diferenças a começar pela diferença fundamental entre homem e mulher. Neste sentido, a Europa é uma verdadeira família de povos, diversos entre si, mas ligados por uma história e um destino comuns. Os últimos anos, e ainda mais a pandemia, têm demonstrado que ninguém pode sobreviver sozinho e que uma certa forma individualista de conceber a vida e a sociedade gera apenas desconforto e solidão. Todo o ser humano aspira a fazer parte duma comunidade, ou melhor, duma realidade maior que o transcenda e dê sentido à sua individualidade. Uma Europa dividida, feita de realidades solitárias e independentes, facilmente se achará incapaz de enfrentar os desafios do futuro. Pelo contrário uma Europa-comunidade, solidária e fraterna, saberá valorizar as diferenças e o contributo de cada um para enfrentar, juntos, as questões que a aguardam, a começar pela pandemia, mas também o desafio ecológico, que não diz respeito apenas à proteção dos recursos naturais e à qualidade do ambiente onde habitamos; mas trata-se de escolher entre um modelo de vida que descarta homens e coisas e um modelo inclusivo que valoriza a criação e as criaturas.

Sonho uma Europa solidária e generosa. Um lugar acolhedor e hospitaleiro, onde a caridade – que é a virtude cristã suprema – vença toda a forma de indiferença e egoísmo. A solidariedade é expressão fundamental de toda a comunidade e exige que cuidemos uns dos outros. Falamos sem dúvida duma «solidariedade inteligente», que não se limite apenas a atender às carências fundamentais quando necessário.

Ser solidários significa conduzir quem é mais frágil por um caminho de crescimento pessoal e social, de modo que um dia possa por sua vez ajudar os outros. Como um bom médico, que não se limita a ministrar um medicamento, mas acompanha o paciente até à sua recuperação total.

Ser solidários implica fazer-se próximo. Para a Europa, significa concretamente tornar-se disponível, vizinha e desejosa de apoiar os outros Continentes – penso especialmente na África –, através da cooperação internacional, para se resolverem os conflitos em curso e iniciar um desenvolvimento humano sustentável.

Entretanto a solidariedade alimenta-se de gratuidade e gera gratidão. E a gratidão leva-nos a olhar para o outro com amor; mas, quando nos esquecemos de agradecer pelos benefícios recebidos, estamos mais inclinados a fechar-nos em nós próprios vivendo no medo de tudo o que nos rodeia e é diverso de nós.

Vemos isto nos inúmeros medos que permeiam as nossas sociedades hoje em dia, entre os quais não posso silenciar a difidência a respeito dos migrantes. Só uma Europa que seja comunidade solidária pode enfrentar este desafio de forma profícua, ao passo que as soluções de parte já se demonstraram inadequadas. Com efeito é claro que o devido acolhimento dos migrantes não se pode limitar a meras operações de assistência a quem chega, frequentemente fugindo de conflitos, carestias ou desastres naturais, mas deve permitir a sua integração de tal modo que possam «conhecer, respeitar e até assimilar a cultura e as tradições da nação que os recebe».[7]

Sonho uma Europa saudavelmente laica, onde Deus e César apareçam distintos, mas não contrapostos. Uma terra aberta à transcendência, onde a pessoa crente se sinta livre para professar publicamente a fé e propor o seu ponto de vista à sociedade. Acabaram-se os tempos do confessionalismo, mas também – assim o esperamos – dum certo laicismo que fecha as portas aos outros e sobretudo a Deus,[8] pois é evidente que uma cultura ou um sistema político que não respeite a abertura à transcendência, não respeita adequadamente a pessoa humana.

Os cristãos têm, atualmente, uma grande responsabilidade: como o fermento na massa, são chamados a despertar a consciência da Europa para animar processos que gerem novos dinamismos na sociedade.[9] Por isso, exorto-os a empenhar-se corajosa e decididamente, prestando a sua contribuição em todos os âmbitos onde vivem e trabalham.

Senhor Cardeal!

Estas breves palavras brotam da minha solicitude de Pastor e da certeza de que a Europa ainda tem muito para dar ao mundo. Por conseguinte, as mesmas pretendem unicamente ser uma contribuição pessoal para a reflexão solicitada por muitos sobre o seu futuro. Muito grato lhe ficarei se quiser partilhar o seu conteúdo durante os encontros que vai ter, nos próximos dias, com as autoridades europeias e com os membros da COMECE, que exorto a colaborar num espírito de comunhão fraterna com todos os bispos do Continente, reunidos no Conselho das Conferências Episcopais de Europa (CCEE). Peço a cada um deles que leve a minha saudação pessoal e o testemunho da minha solidariedade aos povos que representam. Os referidos encontros serão, certamente, uma ocasião propícia para aprofundar as relações da Santa Sé com a União Europeia e o Conselho da Europa, e para confirmar a Igreja na sua missão evangelizadora e serviço ao bem comum.

E não há de faltar à nossa querida Europa também a proteção dos seus Santos Padroeiros: São Bento, os Santos Cirilo e Metódio, Santa Brígida, Santa Catarina e Santa Teresa Benedita da Cruz (Edith Stein), homens e mulheres que, por amor do Senhor, se consagraram sem descanso ao serviço dos mais pobres e a favor do desenvolvimento humano, social e cultural de todos os povos europeus.

Ao mesmo tempo que me confio às orações do Senhor Cardeal e às daqueles que tiver possibilidade de encontrar durante a sua viagem, queira levar a todos a minha Bênção.

 

Vaticano, na memória de São João Paulo II, 22 de outubro de 2020.

 

Francisco

 


[1] Estatuto da COMECE, art.º 1.

[2] Francisco, Exort. ap. Evangelii gaudium (24 de novembro de 2013), 228.

[3] Ibidem.

[4] Francisco, Carta enc. Fratelli tutti (3 de outubro de 2020), 11.

[5] N.º 4. Este Ato Europeísta teve lugar em 9 de novembro de 1982.

[6] Declaração Schuman (Paris, 9 de maio de 1950).

[7] Francisco, Discurso aos participantes na Conferência «(Re)Thinking Europe» (28 de outubro de 2017).

[8] Cf. Francisco, Entrevista ao semanário católico belga «Tertio» (7 de dezembro de 2016).

[9] Cf. Francisco, Discurso aos participantes na Conferência «(Re)Thinking Europe» (28 de outubro de 2017).



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