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A «cultura ocidental é incompreensível» sem a Sagrada Escritura (C\ áudio)

No final da formação que orientou aos docentes de EMRC da diocese de Viana do Castelo, e momentos antes de apresentar a sua obra mais recente sobre «As Últimas 7 Palavras de Cristo na Cruz» o padre Pablo Lima falou ao EDUCRIS sobre a “redescoberta dos textos Sagrados fora do mundo religioso” e da necessidade de formação dos crentes num domínio “onde há um longo caminho a percorrer”.

Educris: Assistimos, no ano passado, a uma edição da Bíblia não confessional. Há dias, antes de uma formação sobre o sono na Universidade de Coimbra, o presidente da Associação afirmou que sobre o sono “estava tudo na Bíblia”. Dentro de dias a Conferência Episcopal Portuguesa apresenta, em Lisboa, uma nova tradução dos textos da Sagrada Escritura. Em muitos lugares vemos obras que citam a bíblia. A Bíblia está na moda?

Padre Pablo Lima: A cultura ocidental é impensável sem a Sagrada Escritura. Talvez hoje comece a existir uma maior consciência para o valor da bíblia num contexto não só religioso ou teológico, mas toda a riqueza antropológica e simbólica que a Sagrada Escritura esconde. Hoje em dia talvez exista, no âmbito da cultura e dos seus agentes, um pouco menos de vergonha em referir-se à Sagrada Escritura e a introduzi-la nas suas obras. Hoje a Bíblia deixou de ser um material apenas religioso e abarcou a realidade laica, e isso é extraordinário. Isto acontece por que ela veicula uma mensagem que não é apenas sobre Deus, mas é, também, sobre o Ser Humano.

Educris: Essa nova visão que transparece numa sociedade europeia laicizada é também um desafio para os agentes pastorais, nomeadamente para os professores de EMRC que na escola tem como parte da sua missão pedagógica apresentar as várias hermenêuticas da bíblia refletindo e analisando com os mais novos os textos sagrados. Que desafios se colocam ao fazer hermenêutica bíblia em contexto académico?

Padre Pablo Lima: Hoje já começámos a ouvir a Bíblia em contextos não religiosos e isso é bom. Desperta os alunos para outros discursos sobre a Sagrada Escritura. O desafio que isso coloca aos agentes e aos professores é o de poder ajudar a ir ao encontro do que é a essência da mensagem Bíblica e traduzi-la em conceitos que possam assumir, compreender e trabalhar para descobrirem a profundidade da Sagrada Escritura para sua vida concreta e não como apenas um texto de caracter litúrgico que é a aproximação que muitas vezes as pessoas tem. Julgam que a Bíblia é uma coisa da missa ou da litúrgica ou de ouvir dentro da Igreja. De verdade o texto bíblico é eloquente para todas as circunstâncias do Ser Humano.

Educris: Não obstante os progressos tidos a partir do Concílio Vaticano II no conhecimento das Sagradas Escrituras continuam hoje os católicos muito longe do conhecimento da Bíblia que cristãos das Igrejas da reforma tem?

Padre Pablo Lima:  Sem dúvida. A nossa formação cristã ainda é feita com recurso a materiais que se querem, teoricamente propedêuticos, que introduzem à leitura e meditação da Sagrada escritura. Tenho as minhas dúvidas que estes tipos de materiais levem mesmo a ela. A cultura bíblica, do povo católico, é, em termos gerais inferior ao das Igrejas protestantes. Isto tem razões não apenas ligadas à Sagrada Escritura. Para nós católicos, o culto e a fé não são apenas de caráter bíblico. Temos a dimensão de sacramental da liturgia com enorme peso em relação à bíblia. E esta dimensão está, pelo menos na maioria das Igrejas reformas, ausente ou quase das liturgias destas comunidades. E isso representa um grande empobrecimento simbólico. Talvez na Igreja Católica haja uma tentativa de equilibro destas duas dimensões. No entanto uma grande parte dos católicos ignoram profundamente a palavra de Deus e, como diz São Jerónimo, «ignorar a sagrada Escritura é ignorar o próprio Cristo».

Educris: Como se inverte esta tendência?

Padre Pablo Lima: Temos que começar pelas novas gerações. Proporcionando-lhes o contacto direto com a Palavra de Deus. Tornando mais rica a formação cristã que é passada de forma transversal. Não apenas em ambiente paroquial, mas também em ambiente escolar. É necessário promover iniciativas de formação bíblica, sobretudo as que envolvam as famílias e tornar a Bíblia o centro do lar. Torná-la o centro simbólico da casa. Não a televisão, mas a Bíblia. Há um longo trabalho a fazer aí.

Educris: Apresentou, à pouco mais de um ano, as «Últimas Sete Palavras de Cristo na Cruz». No prefacio diz que “as últimas palavras são também as primeiras”. É um trocadilho ou existe aqui um certo significado teleológico?

Padre Pablo Lima: Podemos ler os evangelhos a partir das últimas Palavras de Cristo. Existem autores que afirmam que todo o evangelho é construído a partir dos relatos da paixão do Senhor. Elas funcionam como uma espécie de resumo, de sumula da palavra de Jesus e podemos lê-las de forma retrospetiva e encontrar nelas o reflexo das dimensões que Jesus viveu no seu ministério. Resumem o que Jesus disse e fez ao longo da sua vida.

Existem nelas um certo pathos, até pelo modo como as várias cenas da paixão e morte de jesus se vão realizar. Na península ibérica esta tradição das últimas Palavras transformou-se, em muitos lugares como uma autêntica litúrgica de substituição da adoração da cruz na sexta feira santa.

Educris|24.03.2019


 
Entrevista ao padre Pablo Lima



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