O desafio de ser «uma presença qualificada e qualificadora», padre Rúben Cruz

Responsável católico defende que a Igreja deve estar na escola contribuindo “para a formação da pessoa toda e de todas as pessoas”

Numa época de confinamento o Departamento para a Presença da Igreja no Ensino da Arquidiocese de Braga promove hoje, dia 22 de fevereiro, uma sessão para as Escolas Católicas locais procurando abordar os desafios da educação e a presença da Igreja no Mundo da Educação.

Em entrevista ao EDUCRIS o padre Ruben Cruz, diretor do setor em Braga, traça os desafios e aponta estratégias vitais para que o ideário destas instituições de ensino não seja “um ensino para as elites”.

EDUCRIS: Como responsável por este setor na Igreja de Braga que desafios se colocam na atualidade?

Padre Rúben Cruz: No nosso entender, há vários desafios, que podemos organizar em dois blocos, cientes da fragilidade desta divisão: por um lado, fomentar e desenvolver a identidade católica (universal), nos seus diversos âmbitos (ad intra) e, por outro lado, realidade complexa da liberdade de educação (ad extra).

Preferencialmente, devemos primeiro falar “para dentro”. O principal desafio que a Igreja enfrenta na escola é o de ser uma presença qualificada e qualificadora que contribui, de sobremaneira, para a formação da pessoa toda e de todas as pessoas – sem acepção de qualquer espécie. Temos, como Igreja, a obrigação de sermos conhecedores em termos científicos, das melhores pedagogias, mas, em simultâneo, de sermos peritos acerca do humano. De acompanhamos, ajudarmos ao discernimento, escutarmos e aprendermos com quem faz connosco caminho, promovendo uma educação integral, que desenvolva o censo crítico do discente, suportado pelo projeto de vida de Jesus Cristo. O padre Halík fala nas conversões nos campus universitários da República Checa – considerado um dos países onde o ateísmo está mais implementado – falando da Igreja como escola de sabedoria, onde há espaço para todos dialogarmos. Por isso, olhamos com muita preocupação para a formação permanente dos professores de EMRC e professores das Escolas Católicas. Daí parecer-nos importante, a presença em encontros nacionais e diocesanos de professores, alunos, acções de formação diversa, para que possamos “materializar” de forma diversa, nos ideários das escolas católicas e na presença da Igreja em geral, a riqueza da diversidade.

Educar para o mundo real e total. Não é por acaso que o Papa Francisco tem colocado todos atentos às periferias, para os pobres, para os últimos, os que parecem tantas vezes descartáveis. Conhecemos felizmente escolas católicas que têm projetos muito interessantes e perfeitamente enriquecedores para os alunos no contacto direto nestas realidades, que são as nossas. 

A este nível, Jean de Munk, partindo da experiência Belga onde a Igreja “não é vista como minoritária, mas como um parceiro qualitativo e quantitativo” na escola, delimita 4 desafios: do projeto cultural universalista da escola; da integração intercultural; da educação moral e estética; introduzir sementes religiosas em sociedades secularizadas.

Mas alguns dos pensadores mais consagrados, e ainda que inscritos em mundividências diversas da nossa, como Habermas, realçam, em inúmeras intervenções e obras, o grande contributo do religioso para uma esfera pública mais comprometida com o bem comum.

EDUCRIS: Perante o desinvestimento do estado nos chamados ‘contratos de associação’ como podem as escolas católicas, que estiveram envolvidas nesta realidade, sobreviver e cumprir a sua missão?

Padre Ruben Cruz: Este último ponto, faz-nos passar para o segundo bloco que merece a nossa maior atenção, enquanto sociedade, e que faz olhar a sustentabilidade dos projetos das escolas católicas muito desejados e apetecíveis por grande parte dos encarregados de educação do nosso país. Estes não estão ao alcance de todos porque não nos deixam ser dos últimos. Há opções tomadas pela tutela que tiveram esta brutal consequência na sociedade. E daí, para garantir a sustentabilidade destes projetos educativos, resultou naquilo que as escolas católicas não queriam: um ensino de elites. Não nos revemos nisto.

Fazendo eco das palavras do professor Doutor António Pedro Homem, no posfácio do livro “Escola de todos, com todos, para todos” começamos por relembrar que Portugal, nos últimos anos, tem vindo a perder pontos no índice de OIDEL – Organização Internacional para a Liberdade de Ensino. Afirma o próprio “Esta situação e o reflexo de políticas do Estado – central e das autarquias locais – que desvalorizam a liberdade de aprender e a livre escolha de projetos educativos”.

Parece-nos importante relembrar, e remetemos leitura para a nota pastoral do sr. Arcebispo, recentemente publicada, fazendo memória do artigo 36º, nº5, da Constituição Portuguesa, que prescreve que o direito e o dever de educação dos filhos compete aos pais.  Perante esta lei, e apenas em jeito de reflexão, que sentido faz um pai pretender um estabelecimento de ensino com qualidade comprovada, assente na segurança, por exemplo, com um projeto educativo consentâneo com os valores que o próprio defende para os seus filhos, se depois não o pode escolher, pois o acesso a esse projeto não é livre? É só para quem pode pagar? Esta não é matriz que a Escola Católica quer seguir. Não se quer transformar em recurso para elites. Pelo contrário, pretendemos, até pelo ideário que defendemos que estes projetos educativos estejam abertos a todos, precavido por uma igualdade de acesso à escola e de sucesso na educação. De igual modo, tem merecido muito a nossa atenção a batalha seguinte dos “inimigos da liberdade de escolha de escola”: a ideologia de género. Estamos pervertidos por uma agenda clara e, talvez, nunca as condições foram tão favoráveis para a tornar viável como agora, concretamente pela usurpação e manipulação dos processos de aprendizagem. Neste sentido, é importante recordar um outro artigo da nossa constituição: “o Estado não pode programar a educação e a cultura segundo quaisquer diretivas filosóficas, estéticas, políticas, ideológicas ou religiosas” (artigo 43º, n.º2). Como afirma o padre José Lopes, no livro acima referido: “Os alunos são filhos dos pais e não do Estado”.

EDUCRIS: Em seu entender o que deve ser hoje uma escola católica?

Padre Ruben Cruz: Pode parecer um comentário “religiosamente” correto, mas inova-se, no nosso entender, com uma cabal fidelidade aos princípios cristãos para uma formação integral da pessoa (proporcionando a síntese fé-ciência-cultura-vida), educação para a justiça, integração ética no mundo e espírito de comunhão. A este respeito, o Papa Francisco provoca à reflexão quando diz: “...em ordem a uma renovação e relançamento das escolas e universidades «em saída» missionária, tais como a experiência do querigma, o diálogo a todos os níveis, a interdisciplinaridade e a transdisciplinaridade, a promoção da cultura do encontro, a necessidade urgente de «criar rede» e a opção pelos últimos, por aqueles que a sociedade descarta e abandona; e também a capacidade de integrar os saberes da cabeça, do coração e das mãos” (CV, 222).

EDUCRIS: O tema central do encontro de hoje vai refletir sobre a questão da cidadania e do desenvolvimento. Trata-se de uma reflexão sobre a nova área disciplinar não curricular ou um convite a uma leitura desta cidadania em chave cristã?

Padre Ruben Cruz: O encontro é destinado às direções das Escolas Católicas presentes na Arquidiocese, tem a seguinte interpelação: que cidadania e desenvolvimento no contexto da Escola Católica? Estará connosco a professora La Salete Coelho, investigadora, coordenadora e especialista em projetos de Educação para o Desenvolvimento e para a Cidadania Global. O facto de ser uma proposta como interrogação, tivemos como objetivo deixar a pergunta em olhar amplo sobre a questão. Claramente será um momento de reflexão sobre esta nova área disciplinar não curricular, quanto ao seu conteúdo, na sua generalidade. No entanto, pensamos que esta proposta pode ser em muito enriquecida com uma leitura em chave cristã desta cidadania, processo que assumimos com muita naturalidade, com responsabilidade e com profissionalismo, engrandecidos e estimulados pelos princípios da Antropologia Cristã.

Educris|22.02.2021



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