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Homilia de abertura da Semana Nacional da Educação Cristã

Disponibilizamos a homilia de D. Manuel Pelino Domingues, vogal da Comissão Episcopal da Educação Cristã e Doutrina da Fé (CEECDF) e bispo de Santarém, na Igreja Matriz do Cartaxo assinalando o arranque da Semana Nacional da Educação Cristã.



1. Todos discípulos e todos educadores
Decorre deste domingo 29 de Setembro ao próximo, 6 de Outubro, a Semana Nacional de Educação Cristã em que reflectimos e damos graças ao Senhor pela luz da fé que nos orienta nos caminhos da verdade, da bondade, da vida plena. Ao longo da semana a igreja procura, através de várias iniciativas, sensibilizar os fiéis e as pessoas de boa vontade para a importância fundamental da educação cristã no desenvolvimento integral e harmonioso da pessoa humana. Na verdade, a fé conduz à esperança e ao amor e abre a porta para o mistério de Deus e do homem. Quem acredita em Jesus Cristo e O segue não anda nas trevas mas tem a luz da vida como Ele prometeu e como experimentam os seus discípulos.
Na comunhão da mesma fé e da mesma missão saúdo todos os participantes desta assembleia litúrgica da Igreja Paroquial do Cartaxo, da diocese de Santarém, e também os tele- espectadores que pela TVI seguem a celebração da eucaristia dominical. Saúdo com especial apreço os pais, avós, e encarregados de educação que procuram transmitir a fé aos filhos e acompanhá-los no percurso de vida cristã. Manifesto a minha admiração e reconhecimento aos catequistas que se entregam com generosidade e alegria a esta missão. Saúdo também cordialmente os educadores da fé, professores de EMRC, animadores de grupos cristãos, responsáveis de movimentos eclesiais. A educação cristã desenvolve-se em muitas actividades e envolve muita gente: famílias, paróquias, catequese da infância e adolescência; EMRC nas escolas; formação cristã de jovens e adultos.

Em boa verdade, a educação cristã deve ser assumida por todos nós. Primeiramente como destinatários: todos precisamos de educar a nossa própria fé para a guardar viva e irradiante. Depois, também, como educadores, pois todos nos guardamos uns aos outros na fé, como afirma o lema desta semana “Guardar a fé – Guardar o Outro”. Na verdade, todos somos discípulos que aprendem e seguem o mesmo mestre, Jesus Cristo, e, como discípulos, todos somos também responsáveis pela fé dos outros. Não como pessoas ou grupos isolados mas como membros activos da família e da comunidade cristã, a escola fundamental da educação da fé. Sem este apoio da família e da comunidade, onde a vida cristã se torna visível em gestos e sinais, pouca eficácia terá a acção dos catequistas ou de outros educadores da fé.

A corresponsabilidade pela fé uns dos outros coloca-nos, porém, um grande desafio: passar de uma igreja de clientes de serviços religiosos a uma comunidade de discípulos. É uma preocupação a retomar constantemente na linha da renovação eclesial que vem do Concílio Vaticano II e tão necessária para pôr em prática uma nova evangelização.

2. Combater a indiferença

As leituras deste domingo chamam a nossa atenção, para um valor de primeira importância que a educação cristã nunca pode esquecer: a solidariedade, associada à bondade e à responsabilidade pelo bem dos outros. O evangelho apresenta-nos a parábola do rico avarento que ostenta um luxo descarado e se mostra indiferente à fome e miséria do pobre chamado Lázaro que jaz junto do seu portão, coberto de chagas.

O rico avarento do evangelho, fechado na fruição egoísta da sua riqueza e insensível aos problemas dos outros é o retrato do que se passa em todos os tempos. Ainda hoje, apesar de tanto investimento na educação, encontramos à nossa volta e em nós próprios, muitas expressões de individualismo, de indiferença aos outros, de acomodação em privilégios, de vida indolente e vazia. A situação do rico da parábola, cheio de bens do mundo mas vazio de caridade e de boas obras, ou dos ricos de Sião, insensíveis à ruina de seus irmãos, denunciados pelo profeta Amós, continua a existir nas nossas sociedades ricas de bem-estar material e de progresso tecnológico mas onde falta abertura aos outros, solidariedade, sentido da vida, esperança e alegria. Esta é uma pobreza humana que a educação cristã procura vencer. De facto, educação cristã significa sair de si mesmo para seguir o caminho de Cristo ao encontro de Deus e dos outros.

Na visita a Lampedusa, O Papa Francisco criticou fortemente a indiferença aos outros, tão presente na nossa sociedade de bem-estar. Chamou-lhe a “globalização da indiferença”. Afirmou o papa: “A cultura do bem-estar, que nos leva a pensar em nós mesmos, torna-nos insensíveis aos gritos dos outros, faz-nos viver como se fôssemos bolas de sabão: estas são bonitas mas não são nada, são pura ilusão do fútil, do provisório. Esta cultura do bem-estar leva à indiferença a respeito dos outros; antes, leva à globalização da indiferença. Neste mundo da globalização, caímos na globalização da indiferença. Habituamo-nos ao sofrimento do outro, não nos diz respeito, não nos interessa, não é responsabilidade nossa!”

3.Guardar a fé, guardar o outro

Ser cristão é confiar que Deus que nos guarda nos caminhos da vida. E, como consequência, participar do cuidado de Deus pelos outros. Por isso guardar a fé é cuidar do outro, prestar-lhe atenção, carregar com os seus problemas, acompanhá-lo nos caminhos da verdade e do bem. Se neste cuidado alguém merece atenção especial são os mais desfavorecidos. Como rezámos no salmo: “O Senhor faz justiça aos oprimidos, dá pão aos que têm fome, a liberdade aos cativos, ilumina os olhos dos cegos e levanta os abatidos”. “Onde está o teu irmão?”, ou “que fizeste pelo teu irmão”, pergunta Deus a Caím e a todos nós. Guardar a fé é combater o individualismo fechado, a sensualidade egoísta, a indiferença, a indolência e o vazio humano. É o bom combate da fé que São Paulo recomenda a Timóteo e a todos nós, na segunda leitura. Não alcançamos a prática da justiça, da piedade e da caridade, que São Paulo afirma como atributos de um homem de Deus, sem luta contra as inclinações do egoísmo, sem renúncia ao comodismo, às conveniências pessoais. Não há educação eficaz sem esforço, sem sacrifício, sem combate.

Aprendamos com Maria Mãe de Jesus e nossa Mãe. Ela guardou a fé, pois guardou a Palavra de Deus e por ela orientou a sua vida. Guardou Jesus no seu crescimento em idade, sabedoria e graça. Guardou os discípulos apoiando-os no seguimento de seu filho e na preparação do Pentecostes. Peçamos-lhe que nos guarde também a nós para que a fé nos ilumine e nos disponha a guardarmo-nos uns aos outros.

+Manuel Pelino Domingues

 




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