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Solenidade do Sagrado Coração de Jesus: «Coração para sempre aberto»

1. Passa hoje, no calendário litúrgico desta sexta-feira, a Solenidade do Sagrado Coração de Jesus, que assinala a presença viva, próxima e intensa de um amor sublime e de uma esperança nova, refletida no rosto, no coração e no horizonte de cada ser humano. Sagrado Coração de Jesus, fazei o nosso coração semelhante ao vosso, neste dia belo e luminoso em que consagramos ao vosso Coração para sempre aberto a Igreja inteira e o mundo inteiro, sobretudo os que se afastaram de Ti, os doentes e desanimados, as famílias desavindas, as crianças abandonadas, os marginalizados e descartados, os que fogem de situações de guerra ou de miséria, e os que andam à procura de um abrigo, de uma mão carinhosa e de um coração aberto e acolhedor. Deixou escrito, a propósito, o beato Charles de Foucauld (1858-1916): «Perdei-vos no coração de Cristo: ele é o nosso refúgio, o nosso asilo, a casa do pássaro, o ninho da pomba, a barca de Pedro para atravessar o mar tempestuoso».

2. A Solenidade de hoje tem as suas raízes no coração de Deus-Pai, que é a fonte do amor, que chega até nós através das duas mãos do Pai, que são o Filho e o Espírito Santo, como as páginas da Escritura Santa abundantemente documentam. Mas este caminho do Coração de Jesus acentuou-se sobretudo nos tempos modernos, primeiro, nas revelações feitas a Santa Margarida Maria Alacoque (1647-1690), a quem se deve a implantação da devoção das nove primeiras sextas-feiras, mas também é oportuno lembrar S. Vicente de Paulo (1795-1850), que viveu e testemunhou com paixão «o mar imenso das divinas misericórdias», sem esquecer as místicas religiosas Benigna Consolata (1885-1916), que se chamava a si mesma «a pequena secretária do amor misericordioso», Maria Teresa Desandais (1876-1943), que se via a si mesma como a «mensageira do amor misericordioso», e Santa Faustina Kowalska (1905-1938), «secretária da misericórdia». Particular importância para a realização da Solenidade de hoje e para a Consagração do mundo ao Sagrado Coração de Jesus, teve ainda a mística beata Maria do Divino Coração (1863-1899), sem esquecer a influência de Santa Teresa de Lisieux (1873-1897). Todas estas figuras místicas assumiram particular relevo na vivência e divulgação da mensagem da misericórdia de Deus. S. João XXIII dizia que «a Misericórdia é o nome mais belo de Deus, e acrescentava que as nossas misérias são o trono da Misericórdia divina». Em 1856, Pio IX estendeu a toda a Igreja a Festa do Sagrado Coração de Jesus. A Festa ou Solenidade de hoje, bem como a Consagração ao Sagrado Coração de Jesus derivam das revelações das místicas religiosas acima elencadas, tendo sido a beata Maria do Divino Coração a que mais de perto inspirou o Papa Leão XIII à sua instituição, que aconteceu em 1899, mediante a Encíclica Annum sacrum, tendo sido depois confirmadas por Pio XI em 1928, mediante a Encíclica Miserentissimus redemptor, e por Pio XII em 1956, mediante a encíclica Haurietis aquas. No seguimento das revelações da mística Santa Faustina Kowalska, S. João Paulo II instituiu o Domingo da Divina Misericórdia, a celebrar no Domingo II da Páscoa.

3. Esse horizonte novo de um amor sublime e de uma esperança nova brota do coração aberto de Jesus Cristo, fogo ardente de amor e de sentido que enche de luz os nossos passos, tantas vezes andados na penumbra e no escuro. São Paulo diz bem aos cristãos de Éfeso que, antes de terem sido encontrados por Jesus Cristo, viviam «sem esperança e sem Deus no mundo» (Efésios 2,12). A questão, entenda-se bem, já não é apenas viver sem Deus, no desconhecimento (agnôsía) de Deus. É viver sem Deus no mundo, no meio de nós, pertinho de nós, connosco. Sim, se repararmos bem, sem a presença de Deus no mundo, também a nossa habitação fica desabitada, uma espécie de câmara escura, e fica sem sentido a nossa vida. Sem Deus no mundo, pode haver apenas pequenas e inúteis deduções, como quem deduz o céu da terra ou o Último do penúltimo.

 

4. Com Deus no mundo, muda tudo. É o céu que desce à terra, é o Último que enche de sentido o penúltimo. Fica habitada a nossa habitação, e um sentido novo rebenta o nosso escuro duro. Sim, o coração aberto do Deus humanado enche-nos de luz e de esperança. Enche-nos de Jesus, de cujo lado aberto, como lemos no Evangelho de hoje (João 19,31-37), saiu sangue e água (João 19,34): o sangue do Cordeiro que assinala as umbreiras das nossas casas (Êxodo 12,22-23) e lava as nossas túnicas brancas (Apocalipse 7,14); a água, que é o Espírito Santo, que vem para nós da humanidade crucificada e glorificada de Jesus, e alumia a nossa inteligência e o nosso coração de filhos, ensinando-nos a dizer: Ab-ba! Do lado aberto do primeiro Adam adormecido nasceu Eva (Génesis 2,21-22). Do lado aberto do novo e último Adam adormecido nasce a Igreja!

5. Aí está então, conforme a lição de S. Paulo, a nós chegada neste dia (Efésios 3,8-19), o mistério por Deus dado a conhecer e a amar (o conhecimento incha; só o amor edifica), a fonte da nossa vida verdadeira, as nossas habitações habitadas de sentido, os nossos hábitos luminosos e branqueados. Habitação diz-se, na língua grega, êthos. A habitação é a casa, é a Igreja, a Casa bela habitada por filhos e irmãos. Hábito diz-se éthos, de onde vem «ética», que é a norma para viver na Casa, é o amor e a alegria de que os filhos e irmãos, que vivem na Casa, devem andar sempre revestidos. Habitação e hábito! Oh admirável mundo novo, belo e sublime, que Deus não se cansa de oferecer aos seus filhos amados.

6. Veja-se outra vez este admirável solilóquio divino, que o Livro de Oseias hoje nos oferece. Diz Deus: «Quando Israel era um menino, Eu o amei. Fui Eu que ensinei a andar Efraim, que os tomei nos meus braços, mas não conheceram que era Eu que cuidava deles! Com vínculos humanos Eu os atraía. Com laços de amor, Eu era para eles como os que erguem uma criancinha de peito contra a sua face, e me debruçava sobre ela para lhe dar de comer» (Oseias 11,1-4).

7. Um Deus maternalmente debruçado sobre nós. A tão grande e admirável amor condescendente, só podemos responder com adoração e contemplação, dizendo com São Paulo: «Àquele, cujo amor, agindo em nós, é capaz de fazer muito mais, infinitamente mais do que possamos pedir ou conceber, a Ele seja dada a glória na Igreja e em Cristo Jesus, em todas as gerações, pelos séculos dos séculos. Ámen» (Efésios 3,20-21).

8. O Salmo, hoje, é Isaías 12,2-6. Um texto tardio, do colorido de Isaías 40-55, para encerrar com exultante alegria, o chamado Livro do Emanuel (Isaías 7-12). Isaías 40-55 canta a libertação de Judá do exílio na Babilónia, mas canta sobretudo o operador daquela salvação, Deus. Isaías 12 canta a libertação e o libertador, o salvador, que é Deus, que salvou Judá da guerra siro-efraimita. A linguagem está cheio de alegria, de lírica, de louvor, de muita água, como é normal num país árido e desértico. 

9. Sagrado Coração de Jesus, fazei o nosso coração semelhante ao vosso, neste dia belo e luminoso em que consagramos ao vosso Coração para sempre aberto a nossa Diocese de Lamego, as suas crianças, jovens, adultos e velhinhos.

António Couto



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