Colômbia: "Construtores da paz, promotores da vida"

Leia, na íntegra, a homilia do Papa Francisco na celebração da eucaristia no Parque Simón Bolívar, na cidade de Bogotá.

 

O Evangelista lembra que o chamamento dos primeiros discípulos ocorreu nas margens do lago de Genesaret, lugar onde as pessoas se reuniam para escutar uma voz capaz de as guiar e as iluminar; e também é o lugar onde os pescadores encerram as suas fatigantes jornadas, nas quais procuram o sustento para levar uma vida sem dificuldades, uma vida digna e feliz. É a única vez em todo o Evangelho de Lucas em que Jesus prega ao longo do chamado mar da Galileia. No mar aberto confundem-se a esperada fecundidade do trabalho com a frustração pela futilidade de esforços inúteis. E de acordo com uma antiga leitura cristã, o mar também representa a imensidão onde convivem todos os povos. Finalmente, pela sua agitação e escuridão, evoca tudo o que ameaça a existência humana e que tem o poder de destruí-la.

Nós usamos expressões semelhantes para definir multidões: um mar humano, um mar de gente. Naquele dia, Jesus tem atrás de si o mar e, diante dele, uma multidão que o seguiu, porque conhece a sua comoção perante a dor humana…e das suas palavras justas, profundas, certeiras. Todos eles vinham escutá-lo, a Palavra de Jesus tem algo especial que não deixa ninguém indiferente; a sua Palavra tem o poder de converter os corações, mudar planos e projetos. É uma Palavra comprovada em ação, não uma conclusão retirada em escritório, de acordos frios e distantes da dor das pessoas, por isso é uma Palavra que serve tanto para a segurança da costa como para a fragilidade do mar.

Esta amada cidade, Bogotá, e este belo país, a Colômbia, têm muitos destes cenários humanos apresentados pelo Evangelho. Aqui estão as multidões sedentas por uma palavra de vida, que ilumine com a sua luz todos os esforços e mostre o sentido e a beleza da existência humana. Estas multidões de homens e mulheres, crianças e idosos habitam uma terra de fecundidade inimaginável, que poderia dar frutos para todos. Mas aqui também, como em outros lugares, existem trevas densas que ameaçam e destroem a vida: a escuridão da injustiça e a desigualdade social; as trevas corruptoras dos interesses pessoais ou grupais, que consomem de forma egoísta e ultrajante o que está destinado ao bem-estar de todos; a escuridão do desrespeito pela vida humana que sonega diariamente a existência de tantos inocentes, cujo sangue clama ao céu; as trevas da sede de vingança e ódio que mancham com sangue humano as mãos daqueles que tomam a justiça por conta própria; as trevas daqueles que se tornam insensíveis à dor de tantas vítimas. A todas estas trevas Jesus dissipa-as e destrói com o seu mandato na barca de Pedro: «Navega mar adentro» (Lc 5, 4).

Podemos ficar enredados em intermináveis discussões, somar tentativas falhadas e fazer um elenco dos esforços que acabaram em nada; mas como Pedro, sabemos o que significa a experiência de trabalhar sem qualquer resultado. Esta Nação também sabe disso, quando por um período de 6 anos, no início, teve 16 presidentes e pagou caro as suas divisões ("a pátria boba"); também a Igreja da Colômbia conhece uma pastoral vã e infrutífera, mas, como Pedro, também somos capazes de confiar no Mestre, cuja palavra suscita a fecundidade, mesmo ali onde a inospitalidade das trevas humanas torna infrutíferos tantos esforços e fadigas. Pedro é o homem que acolhe decidido o convite de Jesus, que deixa tudo e para o seguir, para se tornar num novo pescador, cuja missão consiste em levar aos seus irmãos o Reino de Deus, onde a vida se torna plena e feliz.

Mas o mandato para lançar as redes não é dirigido apenas a Simão Pedro; a ele tocou-lhe navegar mar adentro, como aqueles que na vossa pátria viram primeiro o que é mais urgente, aqueles que tomaram iniciativas de paz e vida. Atirar as redes implica responsabilidade. Em Bogotá e na Colômbia há uma imensa comunidade, que é chamada a converter-se numa rede vigorosa que congregue a todos na unidade, trabalhando na defesa e no cuidado da vida humana, particularmente quando é mais frágil e vulnerável: no útero materno, na infância, na velhice, nas condições de deficiência e em situações de marginalização social. Além disso, as multidões que vivem em Bogotá e na Colômbia podem tornar-se verdadeiras comunidades vivas, justas e fraternas se ouvirem e acolherem a Palavra de Deus. Nestas multidões evangelizadas surgirão muitos homens e mulheres convertidos em discípulos que, com um coração verdadeiramente livre, seguem Jesus; homens e mulheres capazes de amar a vida em todas as suas etapas, respeitando-a, promovendo-a.

E, como os apóstolos, faz falta ligarmo-nos uns aos outros, acenando, como os pescadores, voltar a considerarmo-nos irmãos, companheiros de caminho, sócios de uma empresa comum que é a pátria. Bogotá e a Colômbia são, ao mesmo tempo, terra, lago, mar aberto, cidade por onde Jesus viajou e viaja, para oferecer a sua presença e a sua palavra frutífera, para nos tirar da escuridão e nos levar à luz e à vida. Para chamar a outros, para todos, para que ninguém seja deixado à ao arbítrio das tempestades; subir para a barca todas as famílias, elas são santuários de vida; para abrir espaço ao bem comum por cima dos interesses pequenos ou particulares, carregar os mais frágeis e promovendo os seus direitos.

Pedro experimenta a sua pequenez, experimenta a imensidão da Palavra e a ação de Jesus; Pedro conhece as suas fragilidades, das suas idas e vindas, como também nós sabemos, como o sabe a história de violência e divisão do vosso povo que nem sempre nos encontrou compartilhando a barca, tempestade, infortúnios. Mas como Simão, Jesus convida-nos a ir mar adentro, impulsiona-nos ao risco partilhado, não tenham medo de arriscar juntos, convidando-nos a deixar os nossos egoísmos e a segui-lo. A perder medos que não vêm de Deus, que nos imobilizam e que retardam a urgência de ser construtores da paz, promotores da vida. Navega mar adentro, disse Jesus. E os discípulos acenaram para que todos se juntassem na barca. Que assim seja para este povo.

Tradução Educris a partir do original italiano






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