Interioridade/crónica: «Do caos quotidiano à essência da vida»

De 11 a 14 de setembro Fátima acolheu a formação «A Interioridade como Paradigma Educativo». Participaram trinta docentes de vinte e duas instituições de ensino católico numa iniciativa do SNEC e com a orientação de Elena Andres, especialista basca do tema.

Ao longo dos próximos quatro dias vamos disponibilizar a crónica sobre esta experiência a partir do diário do professor Ricardo Domingues.

 

Do caos quotidiano à essência da vida

Poderiam muito bem ser aquelas as palavras (as do título) que descreveriam o trabalho do primeiro dia de formação com Elena Andrés. Esta terça feira foi rica em questionamentos, em diálogo desinquietante. Todos fomos sacudidos pelas palavras da Elena, abanados dos nossos afazeres rotineiros e provocados a fazer diferente nos sítios onde trabalhamos e vivemos, particularmente nas nossas escolas. Foi o dia da teoria que reclama a si a ação e o mergulho nas nossas realidades escolares.

Com um jeito muito especial, com uma simpatia, humildade e expressividade cativantes, fomos (re)conduzidos à Pedagogia de Deus, que nos convida a estarmos atentos ao que nos envolve, à ESCUTA permanente. Só através da escuta chegamos à interioridade. E quanto queremos fazê-lo! Ai que sede de chegar lá! A esse incrível espaço, onde nos encontramos verdadeiramente connosco, com os outros e com Deus. Ah, como será espetacular encontrar a “Terra Prometida”, esse lugar nosso, de todos, onde somos infinitamente e inteiramente mais do que um simples perfil de uma rede social…

Para isso, precisamos de viver! Para isso, precisamos de experimentar, de fazer o dilatado caminho da vida, não como turistas, mas como peregrinos que deixam que a caminhada os transforme (ainda que tenhamos a consciência de que precisamos de atravessar desertos, ainda que saibamos que não estamos isentos das crises que nos assolam os dias, com os seus conflitos, as suas dores, os momentos de solidão, de desânimo e de incerteza).

O dia de hoje demonstrou-nos, ou recordou-nos (e recorda a todos), que o caminho da interioridade é o percurso da vida, é a incansável busca de quem somos, sendo que somos quando acontecemos uns nos outros e deixamos que Deus seja cada um de nós.

As nossas escolas são lugares de encontro. São uma excelente oportunidade de procurarmos as realizações com que sonhamos e, sobretudo, ajudarmos os nossos pupilos a chegar lá também. Com eles, independentemente do ano de escolaridade a que pertençam, podemos viver autênticos momentos de beleza humana. Para isso, Elena Andrés propõe-nos a criação de espaços em que carregamos no botão “mute”, onde se oiça a voz do silêncio, onde ecoe a palavra que nos recupera a essência do que somos. A escola surge, assim, como uma ímpar oportunidade para darmos corpo ao interior moral dos jovens com quem partilhamos as nossas vidas. Na escola católica, precisamos de dar voz a esta educação da interioridade, que precisa estar impregnada de “Ágape”. Fomos provocados pela formadora a colocar em ação esta dinâmica globalizante, que requer uma metodologia ativa e mobilizadora, de modo a formar as nossas crianças e jovens na dimensão da competência humana que consegue resgatar o valor do transcendente.

Definiu-se a educação da interioridade como “o lugar de regresso a casa”. Talvez seja o que todos desejamos. Esta proposta é, pois, um “serviço despertar” para miúdos e graúdos, de forma a percebermos que podemos procurar dentro o que temos dentro, fazendo uma peregrinação até nós próprios e permitindo-nos, depois, olhar renovadamente para o horizonte e a vastidão de muitos outros eus, que circulam connosco, e comummente, nos lugares que pisamos todos os dias.

 

11.09.2018|Ricardo Jorge Domingues







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