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«Encontro com Jesus acontece no reconhecimento dos pobres», Papa Francisco

Papa assinalou os 7 anos da visita a Lampedusa com uma eucaristia onde lembrou a tentação do “comodismo” e desafiou os crentes a fazerem o “encontro com Jesus nos pobres enfermos, abandonados e estrangeiros”.

Leia, na íntegra, a homilia do Papa Francisco

 

O salmo responsorial de hoje convida-nos a uma busca constante da face do Senhor: «Buscai continuamente a face do Senhor. Voltai-vos para o Senhor e para o seu poder, buscai continuamente o seu rosto» (Sl 104). Esta busca constitui uma atitude fundamental na vida do crente, que entendeu que o objetivo final da existência é o encontro com Deus.

A busca pelo rosto de Deus é uma garantia do sucesso da nossa jornada neste mundo, que é um êxodo para a verdadeira Terra prometida, a Pátria celestial. A face de Deus é o nosso objetivo e também é a nossa estrela polar, que nos permite não perder o caminho.

O povo de Israel, descrito pelo profeta Oseias na primeira leitura (cf. 10,1-3,7-8,12), era, naquela época, um povo perdido, que havia perdido de vista a Terra prometida e vagueava no deserto da iniquidade. A prosperidade e a riqueza abundante haviam alienado o coração dos israelitas do Senhor enchendo-o de falsidade e injustiça.

 

É um pecado do qual nós cristãos hoje também não estamos isentos. "A cultura do bem-estar, que nos leva a pensar em nós mesmos, torna-nos insensíveis ao choro dos outros, faz-nos viver em bolhas de sabão, que são lindas, mas não são nada, são a ilusão, a ilusão do fútil, do provisório, que leva à indiferença em relação aos outros, ou melhor, leva à globalização da indiferença»(Homilia em Lampedusa, 8 de julho de 2013).

A exortação de Oseias chega até nós hoje como um convite renovado à conversão, para voltar os nossos olhos para o Senhor para ver o seu rosto. O profeta diz: «Semeia com justiça, colhe com amor. Lavra uma terra virgem. Está na hora de consultar o Senhor, até que venha e faça chover sobre vós a justiça» (10,12).

A busca do rosto de Deus é motivada pelo desejo de um encontro com o Senhor, um encontro pessoal, um encontro com o seu imenso amor, com o seu poder salvador. Os doze apóstolos, dos quais o Evangelho de hoje nos fala (cf. Mt 10,1-7), tiveram a graça de o encontrar fisicamente em Jesus Cristo, o Filho de Deus encarnado. Ele chamou-os pelo nome, um por um – ouvimo-lo - olhando nos seus olhos; e eles olharam para o rosto dele, ouviram a sua voz, viram as suas maravilhas. Um encontro pessoal com o Senhor, um tempo de graça e salvação, leva à missão. Jesus exortou-os: «ide e proclamai que o reino dos céus chegou» (v. 7). Encontro e missão não se separam.

Este encontro pessoal com Jesus Cristo também é possível para nós, que somos discípulos do terceiro milénio. Quando buscamos a face do Senhor, podemos reconhecê-lo diante dos pobres, enfermos, abandonados e estrangeiros que Deus coloca no nosso caminho. E este encontro também se torna para nós um tempo de graça e salvação, conferindo-nos a mesma missão confiada aos apóstolos.

Hoje cumprem-se sete anos, o sétimo aniversário da minha visita a Lampedusa. À luz da Palavra de Deus, gostaria de reiterar o que disse aos participantes da reunião “Livres do Medo”, em fevereiro do ano passado: «O encontro com o outro também é um encontro com Cristo. Disse-nos isto Ele mesmo. É Ele quem bate à nossa porta com fome, sede, estrangeiro, nu, doente e preso, pedindo que o encontremos e o ajudemos, pedindo para poder desembarcar. E se ainda temos dúvidas, esta é a sua clara palavra: “Em verdade vos digo, quanto o fizestes a um destes meus irmãos mais novos, a mim o fizeste" (Mt 25,40)».

"Quanto o fizestes ...", para o bem ou para mal. Este aviso é muito atual hoje. Todos devemos tê-lo como um ponto fundamental no nosso exame de consciência, que fazemos todos os dias. Penso na Líbia, nos campos de detenção, nos abusos e violências sofridos pelos migrantes, nas jornadas de esperança, nos resgates e nas rejeições. «Quanto o fizestes ... a mim mo fizestes».

Lembro-me daquele dia, há sete anos, exatamente no sul da Europa, naquela ilha ... Alguns contaram-me as suas próprias histórias, o quanto sofreram para chegar lá. E havia intérpretes. Um contava coisas terríveis na sua língua, e o intérprete parecia traduzir bem; mas ele falou muito e a tradução foi breve. Bem, pensei, esta língua dá mais volta para se poder expressar. Quando cheguei em casa à tarde na receção, havia uma senhora - descanse em paz, ela faleceu - que era filha de etíopes. Ela entendeu o idioma e vira o encontro na televisão. E disse-me isto: "Perdoe-me, mas o que o tradutor etíope lhe disse não é nem um quarto da tortura, do sofrimento que experimentaram". Deram-me uma versão "destilada". Isto sucede hoje com a Líbia: dão-nos uma versão "destilada". A guerra é má, sabemos isso, mas não se consegue imaginar o inferno que se vive lá, naqueles campos de detenção. E estas pessoas vieram apenas com a esperança de atravessar o mar.

Que a Virgem Maria, Solacium migrantium (Ajuda dos migrantes), nos faça descobrir o rosto do seu Filho nos irmãos e irmãs brigado a fugir da sua terra por causa das injustiças que ainda afligem o nosso mundo.

Tradução Educris a partir do original em italiano



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