Fundamentação Teológica

A Igreja e a família são uma para a outra lugares propícios para a participação no mesmo mistério, o da revelação de Deus na história, porque a Igreja realiza a sua missão na edificação das famílias e, reciprocamente, as famílias constroem a Igreja de Deus. De facto, a Igreja e a família têm uma missão comum e «o futuro da humanidade passa pela família» (FC 86) porque o «ser da família» lança uma luz sobre o mundo.

«A edificação de cada família cristã coloca-se no contexto da grande família da Igreja, que a sustenta e a transporta e garante que tenha sentido e que existirá um futuro para ela, o “sim” do Criador. E, reciprocamente, a Igreja é edificada pelas famílias, “pequenas Igrejas domésticas”, como lhes chamou o Vaticano II, redescobrindo uma antiga expressão patrística. No mesmo sentido, a Familiaris Consortio afirma que “o matrimónio cristão… é o lugar natural no qual se realiza a inserção da pessoa humana na grande família da Igreja” [FC 86]» (Bento XVI).

Foi uma autêntica intuição do Concílio Vaticano II ter retomado o termo ecclesiola («uma Igreja em miniatura», Igreja doméstica) de S. João Crisóstomo para manifestar que a vida conjugal, o papel dos pais e dos filhos nas suas relações interpessoais são determinadas por uma vida de «comunhão» e uma «comunidade» a construir (cf. GS 48). A família é uma realidade eclesial, sinal da união de Cristo com a sua Igreja, onde o mistério da Igreja está presente de certo modo (cf. LG 11e FC 49) e a sua própria missão é ser comunidade que salva (cf. FC 49), ao serviço da edificação do Povo de Deus (cf. CIC 1534):

«Nos nossos dias, num mundo muitas vezes alheio e até hostil à fé, as famílias crentes são de primordial importância, como focos de fé viva e irradiante. É por isso que o II Concílio do Vaticano chama à família, segundo uma antiga expressão, “Ecclesia domestica – Igreja doméstica” (LG 11). É no seio da família que os pais são, “pela palavra e pelo exemplo (…), os primeiros arautos da fé para os seus filhos, ao serviço da vocação própria de cada um e muito especialmente da vocação consagrada” (LG 11)» (Catecismo da Igreja Católica, n. 1656)

 Portanto, a família (ecclesiola) é uma realidade eclesial, lugar por excelência de santificação mútua, tal como afirma o Papa João Paulo II na Familiaris consortio, referindo a Sacrosanctum Concilium:

«O dever de santificação da família tem a sua raiz no baptismo e a sua expressão máxima na Eucaristia, à qual está intimamente ligado o matrimónio cristão» (FC 57).

A família é também uma realidade intergeracional. Os esposos, no seu papel de pais, devem representar o amor divino que respeita e promove a diferença e a alteridade de cada criança e adolescente. Os pais são os que deram a vida no nome do Senhor e que representam, aos olhos dos seus filhos, o Deus bom (cf. Lc 18, 19). A comunhão entre gerações é fortificada por um contexto parental onde os próprios pais percebem a exigência de amar, de dar sentido e de honrar os seus próprios filhos como filhos de Deus (cf. Jo 1, 12; João Paulo II, Carta às famílias, n. 22).

A família deve ser sinal e sacramento da presença do Deus Trindade. Na Igreja doméstica, manifesta-se uma presença particular do mistério divino (cf. João Paulo II, Carta às famílias, nº 22). Toda a comunhão na verdade e no amor vem de Deus e constrói-se com Ele, por Ele e n’Ele. O mistério trinitário determina as relações interpessoais dos esposos e dos membros da família. Ela está no coração de Deus quando Deus está no seu coração (cf. 1 Cor 3, 16-17). Deus não está distante da família cristã, antes pelo contrário: à imagem da Trindade que é Unidade em três pessoas, a família é chamada a viver uma unidade profunda dentro de uma pluralidade. As pessoas fortificam a sua singularidade dentro de uma comunhão forte que está na origem da sua fecundidade.

Se a família exprime a natureza da Igreja, ela tem um papel capital onde se encontra, quer seja no bairro, na cidade, vila, paróquia, diocese ou nas culturas onde está inserida. A família é uma manifestação local, corporal, da comunhão eclesial.

O Vaticano II diz que a família é «o santuário da Igreja em casa» (AA 11). O amor da Igreja pela humanidade, na missão de Cristo, transparece nesta comunhão de pessoas. De facto, não há nenhuma história familiar banal, porque cada história de amor, que está na sua base, reenvia à última fonte, a Providência que dá sentido a todas as vidas e conhece todos pelo nome. As crianças são como filhos de Deus confiados aos pais, e os pais são como que aqueles que conduzem ao Criador e salvador. Assim, a família, na sua expressão concreta, representa a encarnação de todo o amor cristão, porque fundada sobre a graça baptismal pertence ao mistério da Igreja. A partir desta graça, exerce a sua missão em diversas direcções, tal como refere a Familiaris consortio:

  • transmissão e serviço da vida;
  • testemunho e educação da fé;
  • serviço da oração e dos sacramentos;
  • construção de uma civilização da vida e do amor numa relação com o mundo, feita de testemunho, de respeito e de anúncio explícito da origem de todo o amor.

Interessa-nos sobretudo o testemunho e a educação da fé na família, isto é, a catequese familiar, porque temos consciência de que é um nó fundamental para que a família possa construir a Igreja, e a Igreja possa fortificar a família, pois, apesar de duas realidades, vivem dum mesmo coração:

«A família é o objecto fundamental da evangelização e da catequese da Igreja, mas é também o seu indispensável e insubstituível sujeito: o sujeito criativo.

Neste sentido, para ser este sujeito, não só para perseverar na Igreja e atingir as suas fontes, mas também para constituir a Igreja na sua dimensão fundamental, como uma “igreja em miniatura” (Igreja doméstica), a família deve, particularmente, estar consciente da missão da Igreja e da própria participação nesta missão» (João Paulo II).

Os bispos portugueses, no documento sobre a família, reforçam a doutrina do Papa João Paulo II, ao considerarem a família como «espaço privilegiado de encontro com o amor, o primeiro lugar onde os filhos aprendem e interiorizam os valores perenes» e falam do magistério da vida que se explicita na experiência quotidiana e se serve de palavras, evidentemente, mas sobretudo de exemplos.

«A família é o espaço privilegiado de encontro com o amor, o primeiro lugar onde os filhos aprendem e interiorizam os valores perenes. É na família que eles, confrontados com o amor fiel e comprometido dos pais, descobrem o significado do dom generoso da própria vida, da partilha, do serviço, do diálogo, do perdão, da tolerância, da compreensão; é no ambiente familiar que eles, educados pela sensibilidade dos pais, aprendem a escutar e a interiorizar a Palavra de Deus e a responder com generosidade aos desafios de Deus; é na “Igreja doméstica” que eles, educados pela piedade dos pais, aprendem a importância da oração e da confiança incondicional no amor providente de Deus; é no enquadramento familiar que eles, despertados pela fé e pelo compromisso eclesial dos pais, tomam consciência da sua fé, do seu baptismo, da sua pertença à Igreja e da sua missão no mundo (CEP, Carta Pastoral «A família, esperança da Igreja e do mundo», n. 54).

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