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«Querida Amazónia»: 20 propostas da Exortação Pós Sinodal

Documento foi apresentado no passado dia 12 de fevereiro, no Vaticano, e reflete desafios e questões analisadas no recente «Sínodo sobre a Amazónia».

Nem só de “celibato” vive a Exortação Pós Sinodal «Querida Amazónia» que “faz eco do extenso documento final do Sínodo” sem” desenvolver todas as questões amplamente tratadas no Documento conclusivo”, aponta o Papa logo no preambulo do documento.

Com o novo documento o Papa Francisco diz esperar “apenas oferecer um breve quadro de reflexão que encarne na realidade amazónica uma síntese de algumas grandes preocupações já manifestadas por mim em documentos anteriores, que ajude e oriente para uma receção harmoniosa, criativa e frutuosa de todo o caminho sinodal”.

Desafiando os crentes a “lerem o documento final do Sínodo” Francisco crê que as “interpelações e os desafios” presentes no território podem levar “outros a empenharem-se na sua aplicação” e a deixarem-se “inspirar, noutras regiões da terra perante os seus próprios desafios”.

Já lemos o documento que conta com 111 pontos, distribuídos por quatro capítulos, a que o papa chama «Sonhos». Desta primeira análise destacamos 20 «Sonhos» que nos parecem imprescindíveis.

Capítulo 1: Um sonho Social

1. Logo no ponto 10, o Papa denuncia “as piores formas de escravatura e de miséria” com milhares de indígenas que “fogem para os subúrbios das cidades” onde cresce a “desigualdes, a xenofobia, a exploração sexual e o trafico de pessoas”. Francisco denuncia os interesses “colonizadores que, legal e ilegalmente, fizeram – e fazem – aumentar o corte de madeira e a indústria minerária e que foram expulsando e encurralando os povos indígenas, ribeirinhos e afrodescendentes”.

2. Quatro número mais à frente, no ponto 14, o Papa deixa algumas das causas para o problema: «Às operações económicas, nacionais ou internacionais, que danificam a Amazónia e não respeitam o direito dos povos nativos ao território e sua demarcação, à autodeterminação e ao consentimento prévio, há que rotulá-las com o nome devido: injustiça e crime. Quando algumas empresas sedentas de lucro fácil se apropriam dos terrenos, chegando a privatizar a própria água potável, ou quando as autoridades deixam mão livre a madeireiros, a projetos minerários ou petrolíferos e outras atividades que devastam as florestas e contaminam o ambiente, transformam-se indevidamente as relações económicas e tornam-se um instrumento que mata. É usual lançar mão de recursos desprovidos de qualquer ética, como penalizar os protestos e mesmo tirar a vida aos indígenas que se oponham aos projetos, provocar intencionalmente incêndios florestais, ou subornar políticos e os próprios nativos». Perante tal flagelo Francisco considera urgente “indignar-se e pedir perdão”.

 3. Atento aos “povos originários” o Papa lembra o papel de “tantos missionários na região” e pede perdão, em nome da Igreja, por todas as vezes em que “o joio se misturou com o trigo, pois os missionários nem sempre estiveram do lado dos oprimidos” e pede «humildemente perdão, não só pelas ofensas da própria Igreja, mas também pelos crimes contra os povos nativos durante a chamada conquista da América» e pelos «crimes atrozes que se seguiram ao longo de toda a história da Amazónia». Aos povos da região o Papa «Agradece a vida» porque é um «grito lançado à consciência (…). Vós sois memória viva da missão que Deus nos confiou a todos: cuidar da Casa Comum», termina no ponto 21 do documento.

Capítulo II: Um Sonho Cultural

4. Neste «Sonho» o Papa começa por convidar à promoção da Amazónia (no ponto 28) mas “explicita que tal não implica não implica colonizá-la culturalmente”, mas antes, “fazer de modo que ela própria tire fora o melhor de si mesma. Tal é o sentido da melhor obra educativa: cultivar sem desenraizar, fazer crescer sem enfraquecer a identidade, promover sem invadir”.

5. No ponto 32 Francisco lembra como é importante a «variedade de estilos de vida e cosmovisões no território» tão vasto. Esta diversidade reflete, de alguma maneira «Deus» que aqui reflete «algo da sua beleza inesgotável através dum território e das suas caraterísticas, pelo que os diferentes grupos, numa síntese vital com o ambiente circundante, desenvolvem uma forma peculiar de sabedoria». O Papa pede uma visão não «simplista e distante da realidade». «Quantos de nós observamos de fora deveríamos evitar generalizações injustas, discursos simplistas ou conclusões elaboradas apenas a partir das nossas próprias estruturas mentais e experiências.»

Capítulo III: Um Sonho Ecológico

6. «Se o cuidado das pessoas e o cuidado dos ecossistemas são inseparáveis, isto torna-se particularmente significativo lá onde “a floresta não é um recurso para explorar, é um ser ou vários seres com os quais se relacionar”. A sabedoria dos povos nativos da Amazónia “inspira o cuidado e o respeito pela criação, com clara consciência dos seus limites, proibindo o seu abuso. Abusar da natureza significa abusar dos antepassados, dos irmãos e irmãs, da criação e do Criador, hipotecando o futuro”. Os indígenas, “quando permanecem nos seus territórios, são quem melhor os cuidam”, desde que não se deixem enredar pelos cantos das sereias e pelas ofertas interesseiras de grupos de poder. Os danos à natureza preocupam-nos, de maneira muito direta e palpável, porque – dizem eles – “somos água, ar, terra e vida do meio ambiente criado por Deus. Por conseguinte, pedimos que cessem os maus-tratos e o extermínio da ‘Mãe Terra’. A terra tem sangue e está sangrando, as multinacionais cortaram as veias da nossa ‘Mãe Terra’», denuncia o Papa no ponto 42.

7. Mais à frente, no ponto 55, novo convite ecológico: «Aprendendo com os povos nativos, podemos contemplar a Amazónia, e não apenas analisá-la, para reconhecer esse precioso mistério que nos supera; podemos amá-la, e não apenas usá-la, para que o amor desperte um interesse profundo e sincero; mais ainda, podemos sentir-nos intimamente unidos a ela, e não só defendê-la: e então a Amazónia tornar-se-á nossa como uma mãe».

Capítulo IV: Um sonho Eclesial

8. «Entretanto, o risco dos evangelizadores que chegam a um lugar é julgar que devem não só comunicar o Evangelho, mas também a cultura em que cresceram, esquecendo que não se trata de “impor uma determinada forma cultural, por mais bela e antiga que seja”. É necessário aceitar corajosamente a novidade do Espírito capaz de criar sempre algo de novo com o tesouro inesgotável de Jesus Cristo, porque “a inculturação empenha a Igreja num caminho difícil, mas necessário”. É verdade que, “embora estes processos sejam sempre lentos, às vezes o medo paralisa-nos demasiado” e acabamos como “espetadores duma estagnação estéril da Igreja”. Não tenhamos medo, não cortemos as asas ao Espírito Santo, disse no ponto 69.

9. Nos pontos 81 e 82 o Papa toca a questão da «Inculturação da liturgia. «Na Amazónia, os Sacramentos não deveriam ser vistos como separação da criação, pois “constituem um modo privilegiado em que a natureza é assumida por Deus e transformada em mediação da vida sobrenatural”». «Isto permite-nos receber na liturgia muitos elementos próprios da experiência dos indígenas no seu contacto íntimo com a natureza e estimular expressões autóctones em cantos, danças, ritos, gestos e símbolos. O Concílio Vaticano II solicitara este esforço de inculturação da liturgia nos povos indígenas, mas passaram-se já mais de cinquenta anos e pouco avançamos nesta linha».

10. O modo de configurar a vida e o exercício do ministério dos sacerdotes não é monolítico, adquirindo matizes diferentes nos vários lugares da terra. Por isso, é importante determinar o que é mais específico do sacerdote, aquilo que não se pode delegar. A resposta está no sacramento da Ordem sacra, que o configura a Cristo Sacerdote. E a primeira conclusão é que este caráter exclusivo recebido na Ordem deixa só ele habilitado para presidir à Eucaristia. Esta é a sua função específica, principal e não delegável» sustenta o Papa fazendo memória de João Paulo II no ponto 87 do documento.

11. Perante comunidades eclesiais que vivem «em circunstâncias específicas» e tantas vezes «em lugares remotos» o Papa considera ser urgente «encontrar um modo para assegurar este ministério sacerdotal. Os leigos poderão anunciar a Palavra, ensinar, organizar as suas comunidades, celebrar alguns Sacramentos, buscar várias expressões para a piedade popular e desenvolver os múltiplos dons que o Espírito derrama neles. Mas precisam da celebração da Eucaristia, porque ela ‘faz a Igreja’, e chegamos a dizer que ‘nenhuma comunidade cristã se edifica sem ter a sua raiz e o seu centro na celebração da Santíssima Eucaristia’. Assim o Papa pede aos Bispos que «promovam a oração pelas vocações sacerdotais e também a ser mais generosos, levando aqueles que demonstram vocação missionária a optarem pela Amazónia», lê-se nos pontos 89 e 90.

12. Perante a «Escassez de sacerdotes» o Papa sustenta a necessidade de «mais diáconos permanentes, religiosas e leigos maduros que, dotados de autoridade, conhecedores das línguas e culturas, possam fazer um acompanhamento adequado». «Precisamos de promover o encontro com a Palavra e o amadurecimento na santidade por meio de vários serviços laicais, que supõem um processo de maturação – bíblica, doutrinal, espiritual e prática – e distintos percursos de formação permanente», diz nos pontos 92 e 93.

13. No ponto 96 Francisco lembra as «comunidades de base» como lugares que «sempre souberam integrar a defesa dos direitos sociais com o anúncio missionário e a espiritualidade». Para o Papa estas «foram verdadeiras experiências de sinodalidade no caminho evangelizador da Igreja na Amazónia. Muitas vezes “têm ajudado a formar cristãos comprometidos com a sua fé, discípulos e missionários do Senhor, como o testemunha a entrega generosa, até derramar o sangue, de muitos dos seus membros’».

14. Logo no 97 pede um «aprofundamento do serviço conjunto que se realiza através da REPAM e outras associações com o objetivo de consolidar aquilo que solicitava Aparecida: “estabelecer, entre as Igrejas locais de diversos países sul-americanos que estão na bacia amazónica, uma pastoral de conjunto com prioridades diferenciadas”.

15. No ponto 98 o Papa desafia à criação «de equipas missionárias itinerantes» pois «na Amazónia há uma grande mobilidade interna, uma migração constante, muitas vezes pendular, e “a região transformou-se efetivamente num corredor migratório”. Por outro lado, isto desafia as nossas comunidades urbanas, que deveriam cultivar com inteligência e generosidade, especialmente nas periferias, várias formas de proximidade e receção às famílias e jovens que chegam ao território».

16.  A mulher, e o seu papel na Igreja, fazem parte do ponto 99 onde Francisco as apresenta como «força e dom». «Na Amazónia, há comunidades que se mantiveram e transmitiram a fé durante longo tempo, mesmo decénios, sem que algum sacerdote passasse por lá. Isto foi possível graças à presença de mulheres fortes e generosas, que batizaram, catequizaram, ensinaram a rezar, foram missionárias, certamente chamadas e impelidas pelo Espírito Santo. Durante séculos, as mulheres mantiveram a Igreja de pé nesses lugares com admirável dedicação e fé ardente. No Sínodo, elas mesmas nos comoveram a todos com o seu testemunho».

17. No ponto 100 o Papa convida a alargar o horizonte para evitar reduzir a nossa compreensão da Igreja a meras estruturas funcionais. Este reducionismo levar-nos-ia a pensar que só se daria às mulheres um status e uma participação maior na Igreja se lhes fosse concedido acesso à Ordem sacra. Mas, na realidade, este horizonte limitaria as perspetivas, levar-nos-ia a clericalizar as mulheres, diminuiria o grande valor do que elas já deram e subtilmente causaria um empobrecimento da sua contribuição indispensável».

18. Ainda no ponto 103, e após explicar a necessidade do aparecimento «de novos serviços e carismas para as mulheres» Francisco reforça a ideia de que «uma Igreja sinodal, as mulheres, que de facto realizam um papel central nas comunidades amazónicas» e «deveriam poder ter acesso a funções e inclusive serviços eclesiais que não requeiram a Ordem sacra e permitam expressar melhor o seu lugar próprio. Convém recordar que tais serviços implicam uma estabilidade, um reconhecimento público e um envio por parte do bispo. Daqui resulta também que as mulheres tenham uma incidência real e efetiva na organização, nas decisões mais importantes e na guia das comunidades, mas sem deixar de o fazer no estilo próprio do seu perfil feminino».

19. No ponto 104 Francisco alerta para o perigo de «um conjunto de soluções aparentemente fragmentadas» e desafia os agentes no terreno a buscar a «verdadeira resposta aos desafios da evangelização» em «caminhos melhores, talvez ainda não imaginados. O conflito supera-se num nível superior, onde cada uma das partes, sem deixar de ser fiel a si mesma, se integra com a outra numa nova realidade».

20. A convivência Ecuménica e Inter-religiosa é o último tópico do documento a partir do ponto 106. «Numa Amazónia plurirreligiosa, os crentes precisam de encontrar espaços para dialogar e atuar juntos pelo bem comum e a promoção dos mais pobres. Não se trata de nos tornarmos todos mais volúveis nem de escondermos as convicções próprias que nos apaixonam, para podermos encontrar-nos com outros que pensam de maneira diferente. Se uma pessoa acredita que o Espírito Santo pode agir no diverso, então procurará deixar-se enriquecer com essa luz, mas acolhê-la-á a partir de dentro das suas próprias convicções e da sua própria identidade. Com efeito, quanto mais profunda, sólida e rica for uma identidade, mais enriquecerá os outros com a sua contribuição específica».

Educris|13.02.2020

Imagens: Firmino Cachada



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