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Audiência-geral: O evangelho é «Revolução», e orar é «descobrir-se amado pelo Pai»

Na terceira catequese sobre o «Pai-Nosso», na primeira audiência-geral do ano civil, o Papa convidou os fiéis a analisarem a fundo o «sermão das bem aventuranças» e a perceberem o Evangelho como «Uma revolução que não nos deixa parados».

Leia, na íntegra, a catequese do Papa Francisco.

 

Catequese sobre "Pai Nosso": 3. No centro do discurso da montanha

 

Queridos irmãos e irmãs, bom dia e também feliz ano novo! Continuamos as nossas catequeses sobre o "Pai Nosso", iluminadas pelo mistério do Natal que acabamos de celebrar. O Evangelho de Mateus coloca o texto do “Pai Nosso" num ponto estratégico, no centro do sermão da montanha (cf. 6, 9-13). Neste ponto observemos a cena: Jesus sobe a colina perto do lago, senta-se; à sua volta, em círculo encontram-se os seus discípulos mais íntimos e, em seguida, uma grande multidão de rostos anónimos. É esta assembleia heterogénea que primeiro recebe o ensinamento do "Pai Nosso".

A colocação, como disse, é muito significativa; porque neste longo ensinamento, que se passa sob o nome de "sermão da montanha" (cf. Mt 5, 1-7, 27), Jesus condensa os aspetos fundamentais da sua mensagem. O exordio é como um arco decorado para a festa: as bem-aventuranças. Jesus coroa de felicidade uma série de categorias de pessoas que no seu tempo - mas também no nosso! – não eram muito considerados. Bem-aventurados os pobres, os mansos, os misericordiosos, os humildes de coração ... Esta é a revolução do Evangelho. Onde há o Evangelho, há revolução. O Evangelho não nos deixa quietos, empurra-nos: é revolucionário. Todas as pessoas capazes de amar, os pacificadores que até então estiveram à margem da história, são, pelo contrário, construtores do Reino de Deus, é como se Jesus estivesse a dizer: em frente vós que trazeis no coração o mistério de um Deus que revelou a sua omnipotência no amor e no perdão!

Deste portal de entrada, que subverte os valores da história, vem a novidade do Evangelho. A lei não deve ser abolida, mas precisa de uma nova interpretação, que a leve de volta ao seu significado original. Se uma pessoa tem um bom coração, predisposto a amar, então entende que toda palavra de Deus deve ser encarnada até às suas últimas consequências. O amor não tem limites: pode-se amar o cônjuge, o amigo e até mesmo o inimigo com uma perspetiva completamente nova. Jesus diz: «Eu, porém, digo-vos: amai os vossos inimigos e orai por aqueles que vos perseguem. Fazendo assim, tornar-vos-eis filhos do Vosso Pai que está nos céus; pois ele faz nascer o sol sobre os maus e sobre os bons, e faz chover sobre os justos e os injustos» (Mt 5,44-45).

Aqui está o grande segredo que sustenta todo o sermão da montanha: sejam filhos do vosso Pai que está no céu. Aparentemente, estes capítulos do Evangelho de Mateus parecem ser um discurso moral, parecem evocar uma ética tão exigente que parece impraticável e, em vez disso, descobrimos que eles são, acima de tudo, um discurso teológico. O cristão não é aquele que está comprometido em ser melhor que os outros: ele sabe que é pecador como todos. O cristão é simplesmente o homem que para diante da nova Sarça Ardente, à revelação de um Deus que não carrega o enigma de um nome impronunciável, mas que pede aos seus filhos que o invoquem com o nome de "Pai", que se deixa renovar no seu poder para refletir um raio da sua bondade neste mundo tão sedento de bem, tão à espera de boas notícias.

Também deste modo Jesus introduz o ensinamento da oração do "Pai Nosso". Fa-lo distanciando-se de dois grupos do seu tempo. Em primeiro lugar dos hipócritas: «Não sejais como os hipócritas que nas sinagogas e nas esquinas das praças, gostam de orar de pé, para serem vistos pelo povo» (Mt 6, 5). Há pessoas que são capazes de tecer orações ateístas, sem Deus e fazem isto para serem admiradas pelos homens. Quantas vezes vemos o escândalo criado por aquelas pessoas que vão à igreja e passam lá o dia, ou vão lá todos os dias, e depois vivem com ódio dos outros ou dizendo mal das pessoas. Isto é um escândalo! É melhor não ir à igreja: vive assim, como ateu. Mas se vais à igreja vive como filho, como irmão e dá um verdadeiro testemunho, não um contratestemunho. A oração cristã, por outro lado, não tem outro testemunho credível que não a sua própria consciência, onde se realiza um intensíssimo diálogo com o Pai: «Quando orardes, entra no teu quarto, fecha a porta e ora ao teu Pai que está no segredo» (Mt 6, 6).

Assim Jesus distancia-se da oração dos pagãos: «Não desperdicem palavras [...]: eles crêem que são ouvidos pela força de muitas palavras» (Mt 6, 7). Aqui, talvez, Jesus aluda a essa "captatio benevolentiae" [NDR: Captar a benevolência], que era a premissa necessária de muitas preces antigas: a divindade tinha que ser de algum modo domada por uma longa série de louvores, até mesmo de orações. Pensemos naquela cena do Monte Carmelo quando o profeta Elias desafiou os sacerdotes de Baal. Eles gritaram, dançaram, pediram tantas coisas para seu deus os escutar. E em vez disso Elias ficou em silêncio e o Senhor revelou-se a Elias. Os pagãos pensam que falando, falando, falando, falando se reza. E também eu penso em tantos cristãos que acreditam que orar é – desculpem-me - "falar com Deus como um papagaio". Não! Orar parte do coração, de dentro. Tu, ao contrário - diz Jesus - quando orares, volta-te para Deus como um filho para o seu pai, que sabe do que ele precisa antes de perguntar (cf. Mt 6, 8). Também poderia ser uma oração silenciosa, o "Pai Nosso": basta, no fundo, colocar-se sob o olhar de Deus, lembrar-se do seu amor de Pai, e isso é o suficiente para ser ouvido.

Que belo é pensar que o nosso Deus não precisa de sacrifícios para ganhar o seu favor! Ele não precisa de nada, o nosso Deus: na oração pede apenas que mantenhamos aberto um canal de comunicação com ele para nos descobrirmos sempre como seus amados filhos. E Ele ama-nos muito.

Educris a partir do original em italiano

03.01.2018



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