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Angelus: “A verdade exige gestos de caridade”

Na oração do Angelus que recitou, neste domingo, à frente da Igreja onde estão os restos mortais de São Pedro Claver, o Papa Francisco deu graças pela vida e obra do «escravo dos negros para sempre» e lembrou que na atualidade "ainda muitos se fazem à estrada ou ao mar para recuperarem a sua dignidade".

Leia, na íntegra, a alocusão do Papa Francisco.

Queridos irmãos e irmãs:

Pouco antes de entrar nesta igreja onde as relíquias de São Pedro Claver são preservadas, abençoei as primeiras pedras de duas instituições dedicadas a atender pessoas com grave necessidade e visitei a casa da Sra. Lorenza, onde se recebem muitos irmãos e irmãs nossos, todos os dias, para se dar comida e carinho. Estes encontros fizeram-me muito bem porque naqueles lugares pode-se comprovar como o amor de Deus se faz concreto, se torna quotidiano.

Juntos rezaremos o Angelus, lembrando a encarnação do Verbo. E pensamos em Maria, que concebeu Jesus e o trouxe ao mundo. Nós a contemplamos esta manhã sob a invocação de Nossa Senhora de Chiquinquirá. Como sabem, por um longo período de tempo, esta imagem foi abandonada, perdeu a cor e estava quebrada e sem jeito. Era tratada como um pedaço de saco velho, usado sem qualquer respeito até que acabaram por descartá-la.

Foi então que uma mulher simples, que segundo a tradição se chamava Maria Ramos, a primeira devota da Virgem de Chiquinquirá, que viu nessa tela algo diferente. Teve o valor e a fé de colocar essa imagem borrada e rachada num lugar proeminente, restaurando a sua dignidade perdida. Soube encontrar e honrar Maria, que segurava o seu Filho em seus braços, precisamente no que era desprezível e inútil para os outros.

Deste modo, tornou-se um paradigma de todos aqueles que, de várias maneiras, buscam recuperar a dignidade do irmão caído pela dor das feridas da vida, aqueles que não se conformam e trabalham para construir uma habitação digna, que atendem as suas necessidades mais urgentes e, sobre tudo, rezam com perseverança para que possam recuperar o esplendor dos filhos de Deus que lhes foi arrebatado.

O Senhor ensina-nos através do exemplo dos humildes e daqueles que não contam. Se a Maria Ramos, uma mulher simples, lhe concedeu a graça de receber a imagem da Virgem na pobreza desse pano quebrado, a Isabel, uma mulher indígena, e ao seu filho Miguel, deu-lhes a capacidade de serem os primeiros a olhar com olhos simples esse pedaço de pano totalmente novo e ver nele o esplendor da luz divina, que transforma e faz novas todas as coisas. São os pobres, os humildes, os que contemplam a presença de Deus, a quem o mistério do amor de Deus é revelado com maior clareza. Eles, pobres e simples, foram os primeiros a ver a Virgem de Chinquinquirá e tornaram-se os seus missionários, anunciadores da beleza e da santidade da Virgem.

E nesta igreja rezaremos a Maria, que se chamou a si mesma «a escrava do Senhor», e a São Pedro Claver, o «escravo dos negros para sempre», como se fez chamar desde o dia da sua profissão solene. Ele esperava os navios que chegavam de África ao principal mercado de escravos do Novo Mundo. Muitas vezes acompanhava-os apenas com gestos, gestos de evangelização, perante a impossibilidade de comunicação, pela diversidade de línguas. Mas uma carícia transcende todas as línguas. Não obstante, Pedro Claver sabia que o idioma da caridade, da misericórdia era entendido por todos. Na verdade, a caridade ajuda a compreender a verdade e a verdade exige gestos de caridade: vão juntas, não se podem separar. Quando sentia repugnância por eles – porque pobrezinhos vinham num estado que repugnava Pedro Claver beijava-lhes as chagas.

Austero e caritativo até ao heroísmo, depois de ter confortado a solidão de centenas de milhares de pessoas, não morreu honrado, esqueceu-se de si e percorreu os últimos quatro anos da sua vida doente e na sua cela num terrível estado de abandono. É assim que o mundo paga; Deus pagou-lhe de outra maneira.

Na verdade, São Pedro Claver testemunhou de forma formidável a responsabilidade e o interesse que cada um de nós deve ter pelos seus irmãos. Este santo foi, além disso, acusado injustamente por ser indiscreto pelo seu zelo e teve que enfrentar críticas severas e persistente oposição por parte daqueles que temiam que o seu ministério minasse o lucrativo tráfico de escravos.

Mesmo hoje, na Colômbia e no mundo, milhões de pessoas são vendidas como escravas, ou imploram um pouco de humanidade, um momento de ternura, vão para o mar ou seguem a estrada porque perderam tudo, trilhando caminhos pela sua dignidade e pelos seus próprios direitos.

María de Chiquinquirá e Pedro Claver convidam-nos a trabalhar pela dignidade de todos os nossos irmãos, especialmente pelos pobres e descartados da sociedade, por aqueles que são abandonados, pelos emigrantes, por todos os que sofrem a violência e o tráfico. Todos têm a sua dignidade e são uma imagem viva de Deus. Todos fomos criados à imagem e semelhança de Deus, e a todos nós, a Virgem mantém-nos nos seus braços como queridos filhos.

Dirijamos a nossa oração à Virgem Mãe, para que possamos descobrir em cada um dos homens e mulheres do nosso tempo o rosto de Deus.

Educris|10.09.2017

Tradução a partir do original em italiano






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