CEI/Budapeste: «Não deixemos que nos roubem a esperança» (EG 86)

Todos dos dias o padre Pedro Manuel, da Diocese do Algarve apresenta, aos leitores do site da Educação Cristã (EDUCRIS), um resumo dos trabalhos do Congresso Eucarístico Internacional, que decorre em Budapeste, em chave catequética

Muitas vezes quando participamos numa formação intensa, o peso do muito que se escuta e a profundidade do que se apresenta vai-nos fazendo sentir cansaço ou até desejo de abrandamento. Em Budapeste sentimos o contrário. Somos visitados pela surpresa a cada dia e a universalidade do que nos chega faz-nos perceber como somos pequenos e como o tudo de Deus realizado em cada história é grande e significativo.

Hoje vivemos o “dia da Esperança”. Este dom e virtude foi-nos acrescentando ao longo de todo o dia um misto de contemplação e missão. Contemplação do muito que se faz, missão no muito que há a fazer. Em laudes, o arcebispo de Bratislava, D. Stanislav Zvolensky, impediu-nos que pensássemos o lugar do futuro nas nossas vidas e qual o sentido das nossas ações para o próximo. “Deus nunca deixa a humanidade sem esperança por isso coloca no coração do homem um desejo de felicidade que nos fará chegar ao céu”. A esperança é o caminho indispensável para o espírito e rumo missionário que a Igreja deve ter e seguir. “Cristo na Eucaristia é a esperança encarnada” e “Ele é a nossa única esperança “.

A catequese da manhã esteve ao cuidado do Cardeal John Onaiyekan da Nigéria. Começou logo por recordar-nos que “não podemos ter medo porque Jesus está connosco”. A Eucaristia como fonte e cume de toda a vida cristã, como nos ensina o Concílio Vaticano II, o Catecismo da Igreja Católica e a Exortação Apostólica Sacramentum Caritatis, é mistério para acreditar, celebrar e viver, e por isso na presença real do Senhor, no sacrifício eucarístico e na comunhão todos somos chamados a alcançar a certeza de que Deus vai além da ação. “A Eucaristia perpetua o sacrifício da cruz que é sacramento de Amor, símbolo de unidade e banquete pascal”. Este é um mistério para crer. Deus está sempre presente connosco cada vez que na beleza do exercício do ministério do padre se actualiza exatamente a mesma palavra do Senhor: “fazei isto em memória de Mim” (Lc 22, 19). “A presença real do Senhor não nos abandona porque Ele está plenamente presente. No novo testamento expressa-se um movimento: o sangue derramado no calvário Se derrama de novo em cada altar”. É o Cristo total que celebra cada liturgia e nós vamos à Eucaristia para participar numa ação sagrada que está para alem das qualidades e defeitos de quem a celebra. O mistério é sempre o mesmo e as extravagâncias não têm aqui lugar. Se celebro com o coração, então “já não sou eu que vivo, é Cristo que vive em mim” (Gl 2, 20).

Nunca somos dignos deste mistério por isso a comunhão é para quem se reconhece indigno pelo seu pecado, mas merecedor de perdão por graça de Deus. Todos! Todos podem mudar o seu pecado em graça, a sua cruz em Ressurreição, o homem velho em Homem novo.

Terminando a sua catequese, o cardeal acrescentou, ainda, que a vida social, pública e política tem por missão a descoberta da coerência e o desejo de viver conforme o que se professa.

O congresso viveu um forte momento espiritual com o testemunho de Mary Healy. Esta professora de Sagrada Escritura, e membro da Pontifícia Comissão Bíblica, pediu-nos que deixássemos o Espírito Santo mudar radicalmente a nossa vida como ela própria sentiu que mudou a sua. Depois de alienada da Fé descobriu que O Senhor estava vivo e que a podia transformar. “Deus tem-nos exatamente onde devemos estar e tem um louco amor por nós ao ponto de desejar curar-nos”.

O perdão é o meio da cura, e por isso, o perdão dado por Jesus é expressão da opção de amor salvífico que torna possível aquilo que pelas nossas forças parece não ser.

Ao longo de três momentos distintos, a oradora levou a multidão presente no Hungexpo a rezar a partir da consciência do mal e da certeza do Bem que tudo vence e cura.

Na Santa Missa, o Cardeal José Espinoza, arcebispo da cidade do Quito, no Equador, que receberá o próximo congresso eucarístico internacional de 2024 deixava-nos os seguintes apelos à luz da Palavra: “amar a quem nos persegue é difícil, mas é o caminho indicado por Jesus para nossa salvação (Papa Francisco). Temos inimigos e as vezes somos inimigos… devemos amá-los. O amor aos inimigos não é opcional é algo característico da nossa vida cristã. Comungamos com o irmão que não nos ama… O Senhor nos perguntará que fizemos com o irmão? Fomos misericordiosos? Não há nada maior e mais fecundo que o amor”.

A parte da tarde foi preenchida com os habituais workshops. Partilho dois entre os diferentes que nos eram propostos. D. Joseph Pamplany, bispo auxiliar de Tellicherry (Índia), falou-nos da situação da Igreja Siro-malabar à luz da Eucaristia. Partindo do pano de fundo da esperança exortou-nos a olhar o momento pandémico actual como oportunidade ideal para esta reflexão. Para a cultura do desespero, a Eucaristia é a resposta.

“A esperança não prevê o futuro ela olha o presente na gestão que dele fazemos”, por isso a Eucaristia é esperança na escuridão.

“No momento mais escuro da Sua noite, Jesus faz-nos a entrega da Sua vida: Isto é o Meu corpo” (Lc 22, 19). Não estamos diante de virtudes abstratas, estamos diante de armas que vencem a presunção e o desespero pois no altar encontramos a fonte da esperança que abre diante de nós três caminhos para uma cristologia que nos oferece respostas: a encarnação - O Senhor assumiu a nossa carne; a crucificação - O Senhor morreu, mas ressuscitou e a escatologia - o optimismo vence o desespero do fim, do vazio. “A esperança é eclesial, por isso em cada martírio nós vemos a celebração da Eucaristia”.

A concluir deixo o testemunho de D. Massimo Camisasca, bispo de Emilia-Guastalla, na Itália. Falava-nos do martírio de sacerdotes em Itália no pós-segunda guerra mundial. Ainda hoje, passados 75 anos, este luto está por fazer e o sentido por encontrar. Onde estava a esperança dos que derramaram o seu sangue? - Em Jesus Cristo, a Quem pertenciam aqueles que por Ele e por causa d’Ele morreram. Duas ditaduras compõem este acontecimento: o nazismo e o comunismo. Também aqui percebemos como a Eucaristia nasce da cruz e da ressurreição. O evento da morte foi também o evento da vida pois “não há maior amor do que dar a vida pelos amigos” (Jo 15, 13).

Entre outras notas, sublinho o martírio do único beatificado, Rolando Livi, um jovem seminarista a quem o seu bispo pediu que uma vez retirado do seminário, fechado por força das circunstâncias, mantivesse o estudo, a oração quotidiana, a vida paroquial e vestisse o hábito talar… hábito esse que desagradou aos seus algozes que o perseguiram, raptaram, fuzilaram e ainda transformaram em forma de bola as suas vestes para de forma maquiavélica deixarem a mensagem de que os dois amores deste jovem tinham morrido também com ele: o desporto e a sua veste.

Este jovem cumpriu à risca o conselho do seu bispo: “amai Jesus Cristo até ao último suspiro”. Assim foi! O sacerdócio que estava a florescer, terminou antes de nascer!

O que quer Deus comunicar à Igreja com estas vidas? - Que são testemunhas da Ressurreição! Porque aceitaram? - Porque sabiam que a sua vida não terminava aqui.

Com a Ressurreição, o martírio tornou-se fonte de esperança, a Fé venceu e produziram-se frutos para a eternidade.

O sentido profundo de toda a alma sacerdotal é que cada um de nós só pode dar a sua vida com Jesus porque a dá a Jesus. Em primeira pessoa o sacerdote diz na santa missa: “isto é o meu corpo” (Lc 22, 19), realmente, assim é!

Diante de tudo isto, mesmo quando o cansaço começa a visitar-nos, já nos perguntamos: - o que escutaremos amanhã? - Que será bom, já percebemos!

Pe. Pedro Manuel, delegado da Diocese do Algarve ao CEI - Budapeste 2020 (em 2021)

Educris|10.09.2021

O padre Pedro Manuel escreve com a grafia anterior ao acordo ortográfico



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