Vaticano: «Os avós e idosos são o pão que nutre a nossa vida», papa Francisco

No I Dia Mundial dos Avós e dos Idosos D. Rino Fisichella presidiu à eucaristia na Basílica de São Pedro, no Vaticano e leu a homilia escrita pelo Papa Francisco para a ocasião

Leia, na íntegra, a homilia do Papa no I Dia Mundial dos Avós e dos Idosos 

Irmãos e irmãs, tenho o prazer e a honra de ler a homilia que o Papa Francisco preparou para esta ocasião.

Sentado para ensinar, Jesus «ergueu os olhos, viu que uma grande multidão se aproximava dele e disse a Filipe: “Onde podemos comprar pão para que estes tenham de comer?” (Jo 6, 5). Jesus não se limita a dar ensinamentos, mas deixa-se questionar pela fome que habita a vida das pessoas. E, assim, alimenta a multidão distribuindo os cinco pães de cevada e os dois peixes recebidos por um menino. No final, como sobraram vários pedaços de pão, ele manda os seus discípulos recolherem-nos, «para que nada se perca» (v. 12).

Neste dia, dedicado aos avós e aos idosos, gostaria de me concentrar nestes três momentos: Jesus que vê a fome da multidão; Jesus que partilha o pão; Jesus que recomenda a recolha dos pedaços que sobraram. Três momentos que podem ser resumidos em três verbos: ver, partilhar e guardar.

O primeiro, ver. O evangelista João, no início da história, destaca este detalhe: Jesus levanta os olhos e vê a multidão faminta depois de ter caminhado para o encontrar. Assim começa o milagre, com o olhar de Jesus, que não é indiferente nem apressado, mas antes sente as dores da fome que atribulam a humanidade cansada. Ele preocupa-se connosco, ele cuida de nós, ele quer alimentar a nossa fome de vida, amor e felicidade. Nos olhos de Jesus vemos o olhar de Deus: é um olhar atento, que se torna consciente de nós, que esquadrinha as expectativas que levamos no coração, que vê o cansaço, o cansaço e a esperança com que avançamos. Um olhar que sabe captar a necessidade de cada um: aos olhos de Deus não há multidão anónima, mas cada pessoa com a sua fome. Jesus tem um olhar contemplativo, isto é, capaz de parar diante da vida do outro e de ler dentro dela.

Este é também o olhar que os avós e os idosos têm na nossa vida. É a maneira como eles cuidam de nós desde a nossa infância. Depois de uma vida de sacrifício, eles não permanecem indiferentes a nós nem apressados sem nos ligar, mas mantem os olhos atentos, cheios de ternura. Enquanto crescíamos e nos sentimos incompreendidos ou com medo dos desafios da vida, eles recordaram-se de nós, do que estava a mudar nos nossos corações e tomaram nota das nossas lágrimas escondidas e dos sonhos que carregávamos dentro de nós. Todos nós passamos pelos joelhos dos avós, que nos seguraram nos seus braços. E é também graças a este amor que nos tornamos adultos.

E nós: que olhar temos para os avós e os idosos? Quando foi a última vez que lhes fizemos companhia ou telefonámos para um idoso para lhe contar acerca da nossa proximidade e nos deixarmos abençoar com as suas palavras? Sofro ao ver uma sociedade que corre, ocupada e indiferente, tomada por tantas coisas e sem poder parar para olhar, uma saudação, uma carícia. Tenho medo de uma sociedade em que todos somos uma multidão anónima e não somos mais capazes de olhar para cima, de nos reconhecer. Os avós, que alimentaram a nossa vida, têm fome de nós: da nossa atenção, da nossa ternura. Para se sentir perto de nós. Vamos olhar para eles, como Jesus faz connosco.

O segundo verbo: partilhar. Depois de ver a fome destas pessoas, Jesus deseja alimentá-las. Mas isto acontece graças ao presente de um menino, que oferece os seus cinco pães e os dois peixes. É bom que no centro deste prodígio, que beneficiou tantos adultos - cerca de cinco mil pessoas - esteja um menino, um jovem, que compartilha o que tem.

Hoje é preciso uma nova aliança entre jovens e velhos, é preciso partilhar o tesouro comum da vida, sonhar juntos, superar os conflitos de gerações para preparar o futuro de todos. Sem esta aliança da vida, dos sonhos, do futuro, corremos o risco de morrer de fome, porque aumentam os laços rompidos, a solidão, o egoísmo, as forças desintegradoras. Muitas vezes, nas nossas sociedades, temos dado vida à ideia de que "cada um pensa por si". Mas isto mata! O Evangelho exorta-nos a partilhar o que somos e temos: só assim podemos estar saciados. Muitas vezes me recordo do que diz o profeta Joel (cf. Jo 3, 1): jovens e velhos juntos. Jovens, profetas do futuro que não esquecem a história da qual vieram; os idosos, sonhadores nunca cansados ??que transmitem experiências aos jovens, sem lhes barrar o caminho. Jovens e velhos, o tesouro da tradição e o frescor do Espírito. Jovens e velhos juntos. Na sociedade e na Igreja: juntos.

O terceiro verbo: guardar. Depois de comerem, o Evangelho regista que sobraram muitos pedaços de pão. E Jesus recomenda: «Recolhei os pedaços que sobram, para que nada se perca» (Jo 6,12). Assim é o coração de Deus: não só nos dá mais do que precisamos, mas também se preocupa para que nada se perca, nem mesmo um fragmento. Um pequeno pedaço de pão pode parecer algo pequeno, mas aos olhos de Deus nada deve ser descartado. E com maior força de razão, ninguém deve ser descartado. É um convite profético que hoje somos chamados a fazer eco em nós e no mundo: recolher, conservar com cuidado, guardar. Os Avós e idosos não são sobras da vida, restos para serem deitados fora. São aqueles pães preciosos deixados na mesa da nossa vida, que ainda nos podem nutrir com uma fragrância que perdemos, "a fragrância da misericórdia e da memória". Não percamos a memória de que os idosos são portadores, porque somos filhos desta história e sem raízes murcharemos. Eles nos protegeram ao longo do caminho do crescimento, agora cabe-nos, a nós, guardar a sua vida, aliviar as suas dificuldades, ouvir as suas necessidades, criar as condições para que suas tarefas diárias possam ser mais simples e não se sintam sós. Perguntemo-nos: “Fui visitar os avós? Até mesmo os idosos da minha família ou do meu bairro? Escutei-os? Dedique-lhes algum tempo? " Vamos protegê-los, para que nada se perca: nada das suas vidas e dos seus sonhos. Cabe-nos, a nós hoje, evitar o arrependimento do amanhã por não termos prestado atenção suficiente a quem nos amou e nos deu a vida.

Irmãos e irmãs, avós e idosos são o pão que nutre a nossa vida. Agradeçamos os seus olhos atentos, que nos notaram, os seus joelhos que nos sustentaram nos braços, as suas mãos que nos acompanharam e ergueram, pelos jogos que nos fizeram e pelas carícias com que nos consolaram. Por favor, não nos esqueçamos deles. Aliemo-nos a eles. Aprendemos a parar, a reconhecê-los, a ouvi-los. Nunca a descartá-los. Vamos mantê-los apaixonados. E aprendamos a compartilhar o tempo com eles. Seremos melhores. E, juntos, jovens e velhos, ficaremos satisfeitos na mesa da partilha, abençoada por Deus.

Tradução Educris a partir do original em italiano

25.07.2021

Imagem: Vatican Media



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