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Pastoral catequética nº20

Nesta edição da «Pastoral Catequética», publicamos textos de diversas comunicações apresentadas em dois contextos distintos: no 50º. Encontro Nacional da Catequese, realizado na Guarda, em Abril deste ano, e no Congresso da Equipa Europeia da Catequese, que teve lugar em Cracóvia, em Junho de 2010. Se os contextos são distintos, não o são as preocupações de fundo e a problemática subjacente. A catequese será sempre um dos espaços da comunicação da grande narrativa da história da salvação, veiculada pela Igreja, templo do Espírito, para conduzir os homens à intimidade com Cristo e ao encontro feliz com Deus Pai. É um conjunto de textos extraordinariamente rico e profundo na definição dos caminhos duma catequese renovada que abra perspectivas concretas e eficazes à «nova evangelização» ou, se quisermos, à «re-evangelização». É, por isso, com grande alegria e determinação que os propomos à reflexão de todos os agentes pastorais, fazendo votos para que encontrem vias profícuas para a sua aplicação prática nas múltiplas modalidades de catequese, em acção ou a construir, nas diversas comunidades cristãs.

               

                “A catequese não é uma escola onde se aprende uma doutrina; é um processo, vivido em comunidade, que nos leva a experimentar «como Deus é bom», como é maravilhosamente bom e amoroso no seu Filho Jesus Cristo”. É um caminho feito em Igreja participando nela e com ela na escuta da Palavra, na celebração dos mistérios, nas exigências da missão, na construção da vida como expressão de amor e de louvor. É o que afirma D. José Policarpo no texto da sua comunicação ao 50º. Encontro Nacional da Catequese. Estamos, deste modo, muito para além duma concepção de catequese reduzida à iniciação e formação cristãs das crianças e adolescentes. D. José Policarpo coloca-nos perante a necessidade de uma catequese permanente, ao longo de toda a vida; não como processo meramente individual, mas realizada no seio de uma comunidade que escuta a palavra de Deus, a celebra e a põe em prática, isto é, que a vive nas suas exigências e nos seus dinamismos sociais, culturais, espirituais, religiosos. “O tempo da catequese é o tempo da Igreja”. Ainda que feita por etapas (tempos, espaços e modos). Desta “renovação contínua da catequese depende muito a renovação da Igreja, para poder ser «sal da terra» e «luz do mundo»”.

                Esta exigência situa-se no âmbito daquilo que Frei Enzo Biemmi apelida de “conversão missionária da catequese”. Uma alteração de paradigma que prefigura e configura a “passagem de uma catequese «de enquadramento» a uma catequese «criativa»” e que apela àquilo a que chama “as três conversões da catequese”:  o primeiro anúncio como dimensão transversal de toda a pastoral que se quer missionária (que, em rigor, poderá para alguns ser um «segundo anúncio»; a recuperação, ao nível da catequese, de uma lógica iniciática inspirada no modelo catecumenal (“de uma catequese que prepara para bem receber os sacramentos a uma catequese que inicia na fé «pelos sacramentos»”; “de uma catequese reservada às crianças para uma que torne o adulto no sujeito e destinatário principal da catequese, mesmo no caso da catequese das crianças”); a “passagem da linguagem, da organização e da proposta intra-eclesial a uma linguagem laica, a uma desorganização da nossa pastoral auto-referencial,  com vista a uma reorganização sobre os tempos e os ritmos da vida humana, a uma proposta de fé que toque as necessidades da vida das pessoas”. É uma conversão pastoral e catequética que radica em duas dimensões fundamentais características da nossa contemporaneidade: uma «proposta de liberdade» e uma «proposta na gratuidade» (proposta gratuita e livre; adesão livre e gratuita).

                Liberdade e graça fundamentam uma pastoral e uma catequese renovadas, capazes de conduzir os homens, hoje, ao conhecimento e à intimidade com Jesus Cristo. Elas definem também a fisionomia e as atitudes do catequista evangelizador de hoje. Constituirão, necessariamente, os contornos essenciais da formação dos catequistas para o nosso tempo. É esta a convicção de Enzo Biemmi, apresentada na segunda conferência que proferiu no 50º. Encontro Nacional da Catequese. Seguindo o episódio/parábola de Filipe e o eunuco (Act 8, 26-40), propõe-nos quatro traços característicos de um catequista simultaneamente acompanhante e formador na fé cristã, os quais, assumidos e vividos na sua autenticidade, conduzirão, naturalmente, a um processo de «osmose» evangelizadora, já que a evangelização será necessariamente recíproca entre evangelizado e evangelizador. Esta convicção não invalida, antes pressupõe, a necessidade de formação dos nossos catequistas na aquisição das grandes competências básicas essenciais (teológica, cultural, pedagógica e espiritual). Os catequistas de que precisamos, conclui E. Biemmi, é dos que renunciam a sujeitar a vida aos seus próprios projectos catequéticos, para servir as mulheres e os homens de hoje, confiando na acção do Espírito que, actuando por seu intermédio e na capacidade de acolhimento da graça por parte dos que são evangelizados, renova todas as coisas.

 

                Na realidade, a fé cristã não é uma ideologia nem uma filosofia, é a experiência duma relação vital, historicamente determinada e determinante, entre Deus e os homens. No início da fé e da sua transmissão ao longo de gerações está a narrativa. Ou seja, a narrativa não constitui apenas a estrutura da fé cristã, mas preenche e modela o conteúdo e a estratégia da sua comunicação e transmissão. Por isso mesmo, a catequese é geneticamente narrativa, já que a própria formulação dogmática, que ela veicula, enraíza e se alimenta, configura-se e se estrutura a partir da narrativa dos acontecimentos de fé. É por isso mesmo, também, que a linguagem apropriada da catequese é a linguagem narrativa – narrativa da acção de Deus no mundo, na história e na vida de cada ser humano. A experiência de vida não é simplesmente ilustrativa da fé. É constituinte da fé. A catequese conta histórias de vida e com vida. O catequista é um contador de histórias – que encantam, motivam, determinam, comprometem. Não se trata, apenas, como afirma Enzo Biemmi, duma questão pedagógica e didáctica, mas da “formulação de uma nova racionalidade catequética”, já que o mistério da fé cristã mora na história, real e concreta, de uma relação, sempre aberta à novidade, susceptível de nos surpreender a cada acontecimento, e que nos incita continuamente a mergulhar nela, a vivê-la e a deixarmo-nos transformar, converter, por ela.

                 O texto de Dennis Villepelet, ao reflectir sobre a noção de narratividade em Paul Ricoeur, põe-nos perante a riqueza ontológica do relato (a narrativa) como “expressão viva da experiência viva” e coloca as bases filosóficas que fundamentam a compreensão da narrativa bíblica como lugar performativo do encontro de Deus e dos homens na história, e que, por isso mesmo, terá de ser lida e reflectida “como convite à transformação”.

                É que um dos objectivos essenciais dos textos bíblicos é o convite a que o leitor, entrando numa relação empática com o narrador, mergulhe no relato, se implique nele, e, por meio de escolhas decisivas, responda positivamente aos desafios lançados pelo narrador, pelas personagens que ele coloca em acção ou pelos acontecimentos objecto da narração. É a tese que nos apresenta o biblista Augusto Barbi, propondo que tiremos dela as necessárias e frutuosas implicações catequéticas.

                Na verdade, como afirma, por sua vez, Christoph Theobald, o acto de fé é fruto de uma “constituição histórica” que implica a relação entre aqueles que o tornam possível e “aqueles que lhe acedem efectivamente”. E isto tanto é válido para a constituição da fé dos primeiros discípulos, segundo os relatos do Novo Testamento, como para o acesso e a confissão de fé dos discípulos de todos os tempos. E ainda que os «princípios» da fé tenham adquirido uma formulação dogmática, importa ter sempre presente que essa formulação dogmática foi construída para «resumir» o «conteúdo» nuclear que teve origem num acontecimento ou numa palavra revelada no seio de relações histórico-salvíficas de Deus e dos homens.

                Monika Scheidler, na sua comunicação, dá mais um passo na senda duma concepção da catequese entendida como lugar, por excelência, da narrativa dos acontecimentos constitutivos da fé cristã. Não se trata, apenas, da “narração orientada para a tradição”, ou seja, da história universal da salvação, mas da própria “narração biográfica” como uma das formas principais da aprendizagem da catequese. A Igreja é, na realidade, uma comunidade de narradores e local de aprendizagem a partir da narrativa dos acontecimentos salvíficos. O verdadeiro catequista é, em relação aos seus catequizandos, o narrador de tais acontecimentos, mas é, também, um narrador de experiências biográficas dos homens de hoje, um moderador dessas narrativas e um narrador auto-biográfico, isto é, narra-se a si mesmo no seu percurso de fé, apresenta-se como testemunha de acontecimentos constitutivos da sua própria fé e da sua adesão à Igreja de Cristo. Isto mesmo é extensível à interacção dos catequizandos entre si e destes com o próprio catequista. Esta perspectiva não põe, naturalmente, em causa o dever de a catequese transmitir a fé da Igreja na sua integralidade.

                Estamos perante uma catequese convidada a tomar posse do tesouro narrativo de toda a tradição cristã (a começar pela Sagrada Escritura), mas também perante um conjunto inter-actuante de autobiografias em construção, de testemunhos que se interpenetram, histórias inacabadas a «escrever-se» - um acrescento sempre novo ao fio da tradição cristã. É o que nos apresenta André Fossion na síntese que elabora das quatro conferências proferidas no Congresso da Equipa Europeia da Catequese. Será utópica a definição de catequese que nos propõe?!  “A catequese consiste num dispositivo que visa oferecer as melhores condições para que a história da salvação narrada e celebrada pela comunidade cristã se torne, para os catequizandos, na sua própria história de tal forma que a sua vida seja entendida, relatada e vivida como uma história de salvação, dada a sua livre adesão à pessoa de Jesus Cristo”. Isto é, uma «alquimia subtil» entre os relatos da tradição e o relato da vida. André Fossion acrescenta, ainda, dois contributos para uma autêntica «catequese narrativa»: a proposta de uma “pedagogia catequética narrativa” (em que, para além de se apoiar nos relatos da história da salvação, ela própria se articule, estruture e construa de forma narrativa) e o “relatar da própria catequese”, ou seja, levar os catequizandos a fazer do seu percurso de transformação e evolução de fé objecto de relato. Esta última estratégia, radicada num princípio que poderíamos apelidar de «mistagógico», permitiria dar um passo decisivo: a transformação de discípulos em apóstolos.

                É um facto que “a verdade cristã antes de ser racional é relacional”, e só nesse espaço se pode dar o seu acolhimento. É a partir desta memória relacional que poderão ser operadas as reflexões, as argumentações, as sínteses doutrinais e as propostas para a vida. Também elas preencherão os conteúdos da catequese. É o que nos afirma Enzo Biemmi na comunicação conclusiva do Congresso da EEC. Abre-se, por esta via, um profícuo caminho para a catequese dos nossos dias. Não uma abordagem doutrinal e abstracta da fé, mas um percurso que vai ao encontro da história de Deus com os homens de todos os tempos, necessariamente os de hoje. Há, de facto, várias formas reconhecidas e proveitosas de leitura bíblica. A da catequese será fundamentalmente narrativa e, do ponto de vista pedagógico, essencialmente dialógica. Porque, na verdade, do que se trata é de colocar a vida das pessoas em contacto com a Palavra e colocar a Palavra de Deus em contacto com as pessoas.

                Só desse modo poderá ser escrito o «Quinto evangelho», ou seja, o daqueles que acolheram no seu íntimo os outros «quatro», transformaram, a partir deles, a sua própria vida e testemunham, com essa mesma vida, a verdade profunda e absoluta neles contida e relatada. Serão eles que, com as suas histórias particulares, “bonitas ou tristes, felizes ou dramáticas, lineares ou acidentadas, luminosas ou obscuras”, constituem a Igreja de Deus – o lugar do acolhimento da história de todos, isto é, “o relato vivo da graça de Deus”, a narrativa por excelência das maravilhas de Deus, no mundo criado, na história dos homens e na vida de cada um de nós.

                Diác. Acácio Lopes

Diretor do SNEC

               



Recursos:
50º Encontro Nacional da Catequese: A Catequese no contexto das prioridades pastorais da Igreja em Portugal:



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