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Homilia no encerramento da Semana Nacional da Educação Cristã

Disponibilizamos, na íntegra, a homilia de D. Manuel Pelino Domingues, bispo de Santarém e presidente da Comissão Episcopal da Educação Cristã e Doutrina da Fé (CEECDF) proferida na Sé de Santarém no encerramento da Semana Nacional da Educação Cristã 2016.

Concluímos neste domingo a celebração da Semana Nacional de Educação Cristã dedicada a sensibilizar os fiéis e as pessoas de boa vontade para a emergência atual da educação. Educar é missão de todos. Mas a alguns é confiada a responsabilidade concreta de cuidar do crescimento harmonioso de pessoas determinadas: os pais primeiros educadores de seus filhos; os pastores das comunidades cristãs; os professores de várias áreas; os catequistas que acompanham no caminho do evangelho; os responsáveis de movimentos educativos; e outros. A todos estes educadores saúdo com afeto e admiração. Saúdo igualmente os participantes nesta assembleia dominical, na Sé de Santarém, bem como os que acompanham a transmissão da TVI, de modo particular os idosos e os doentes.

O evangelho deste domingo narra-nos o encontro de Jesus com Zaqueu que pode proporcionar-nos uma reflexão muito oportuna sobre a educação cristã. É nessa perspetiva que faço a homilia, apoiando-me também na Nota Pastoral para esta Semana da Educação Cristã, publicada pela Comissão Episcopal respetiva.

  1. 1.    Jesus uma referência para Zaqueu

Ouvimos no evangelho que Zaqueu procurava ver quem era Jesus. Para isso subiu a uma árvore. O que motivava Zaqueu a procurar ver Jesus? Seria curiosidade ou inquietação? Pelo gesto final em que prometeu repartir metade dos bens pelos pobres e restituir quatro vezes mais aos que tinha prejudicado, descobrimos que este homem era movido por uma procura interior de maior justiça e fraternidade. Jesus representava para ele uma vida nova muito diferente da de Zaqueu. Este homem de Jericó era chefe de cobradores de impostos. Jesus apresentava-se como Servo, não como Senhor e Chefe. Zaqueu era rico, provavelmente explorador, as suas mãos tocavam o dinheiro. As mãos de Jesus tocavam as chagas dos doentes, dos leprosos, dos sofredores. As atenções de Jesus estavam voltadas para os pobres e para os vulneráveis. Zaqueu subiu à arvore para ver de um pedestal sem ser visto. Jesus atravessava a cidade, andava no meio da multidão, próximo, solidário.

Zaqueu procurava ver Jesus porque a vida do Mestre da Galileia correspondia aos anseios mais profundos do coração humano – o desejo de bondade, de dignidade, de liberdade interior. Jesus constituía para Zaqueu uma referência de fraternidade e de misericórdia.

Mas Jesus também procurava Zaqueu. Como afirmou no final do evangelho que escutámos: “O filho do homem veio procurar e salvar o que estava perdido”. Jesus vem oferecer a Zaqueu e a todos nós uma vida nova de integração na comunidade, de paz, de alegria. Entendemos neste sentido a atitude de Zaqueu: recebeu Jesus com alegria, repartiu os bens, pagou as dívidas com juro. O encontro com Jesus transformou a vida daquele chefe de cobradores de impostos. Tornou-se um homem livre, acolhedor, feliz. Seguiu o caminho de Jesus.

  1. 2.    Educar é pôr a caminho

No contexto da Semana de Educação Cristã, este evangelho coloca-nos uma questão pertinente: Que procuram os educadores para os seus formandos, os pais para seus filhos, os catequistas e professores ou dirigentes de movimentos para seus educandos? Procuram que sejam felizes, certamente, que vivam com alegria e responsabilidade. Como os ajudam a alcançar esta meta? Transmitindo saberes e referências, proporcionando uma habilitação para o trabalho, ajudando a encontrar uma situação estável na vida, oferecendo bens de consumo.

A felicidade, porém, encontra-se para além da situação estável e dos bens de consumo. Alcança-se fazendo caminho. Educar é propor o caminho para uma vida plena, livre, feliz. A educação não é estática, é dinâmica.

Como vemos em Zaqueu, a alegria vem da procura da bondade, da liberdade, da dignidade. Uma procura que conduz para fora de si mesmo, ao encontro dos outros. À nossa volta e em nós mesmos encontramos muito egoísmo, partidarismo, grupos fechados, rivalidade, indiferença. Educar é levar a sonhar um mundo novo - de fraternidade, paz e alegria - e incentivar a entregar-se ao serviço desse sonho. Educar é estimular os educandos “a ser agentes políticos, pessoas que pensam, animadores sociais” (Papa Francisco em Cracóvia).

Não é um sonho nas nuvens, teórico. É um sonho feito realidade em Jesus Cristo. Ele é a referência e a realização concreta deste caminho. Como para Zaqueu, também para cada um de nós, Ele é o caminho novo e o guia desse caminho. Por isso, educar cristãmente é levar ao encontro de Jesus. Deste encontro nasce a vontade de renovar a vida e a fonte da alegria. A alegria de sermos amados e acompanhados por Jesus; a alegria de recebermos e testemunharmos a misericórdia; a alegria de ver os outros como irmãos com quem partilhamos o que temos de bom. O segredo da educação está no encontro com Cristo e no seguimento do Seu caminho. Encontrar Cristo é ver os outros com os olhos de Jesus e entender a vida como uma missão de construir a justiça e testemunhar a misericórdia.

  1. 3.    Educadores acompanhantes no caminho

Neste trecho do evangelho, Jesus ensina-nos também a ser educadores. Como educa Jesus? Como educamos nós?

Jesus educa pela atenção, pela proximidade e pelo acompanhamento. Ao passar pela árvore onde Zaqueu se tinha pendurado, levantou os olhos para ele e pediu-lhe com amizade e confiança: “Zaqueu desce depressa que eu hoje devo ficar em tua casa”. Zaqueu não podia imaginar que Jesus precisasse dele. Desceu rapidamente e recebeu-O com alegria. Abriu as portas a Jesus, abriu o coração e os bens abundantes aos outros: “vou dar aos pobres metade dos meus bens e, se causei algum prejuízo a alguém, restituirei quatro vezes mais”. Educar é ajudar a sair do seu mundo, a baixar do pedestal e a abrir-se ao acolhimento e à fraternidade.

Jesus deseja ser educador de todos nós, quer entrar na nossa casa e fazer connosco um caminho novo. Aceitemos que Ele nos acompanhe na existência. E aprendamos com Ele a educar, a acompanhar outros no caminho para uma vida plena, para a alegria. O educador cristão é um artista que colabora na obra divina de modelar em cada educando a imagem de Deus onde resplandece a perfeição do amor. Bendigamos ao Senhor que ama tudo o que existe e a todos chama à perfeição.  

Manuel Pelino Domingues
Bispo de Santarém 
Presidente da CEECDF




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