Outrolhar
Preparar o Futuro
Com graça e o seu cepticismo anti-cognitivista habitual, Nuno Crato relatou, há dias, no "Expresso", o seu entusiástico uso das novas tecnologias e a constatação controlada de como a sua introdução na sala de aula não produz mais aprendizagem. De facto, como múltiplos estudos mostram, um "Magalhães" é só uma caneta superlativamente gira e um projector de imagem ou um pau de giz mais limpo. Para que os alunos aprendam melhor aquilo que faz a diferença é, realmente, que o professor ensine mais: mais tempo, mais organizadamente, com mais clareza discursiva, com maior segurança e tessitura de pensamento, com uma visão mais global e estruturada da sua disciplina, com um treino mais eficaz e consciente do infindável ciclo planificação avaliação. E, se à técnica, se unir a arte que faz do professor um Mestre, os alunos ainda beneficiarão do bónus extra que são as armas da motivação, aquele encantamento especial que resulta de um misto de paixão pela matéria e o gosto intenso de se dar ao público exigente que são os alunos, base insuperável do docente que marca e nunca se esquece. Desta dramaturgia cintilante e provocadora, que está no centro da relação pedagógica, se falou, tal como prometido, no Fórum "Pensar a Escola". E também de autoridade e responsabilidade, da inultrapassável importância da desprezada cultura geral, do regresso da ciência mentalmente liberta da confusa ditadura da técnica, da filosofia que nos faz gregos, da religião e dos seus símbolos, da matemática sem calculadora, da chave que é a literatura pesada nas portas da densa leveza de ser, da poesia com música e da arte artística que arrebata e faz pensar, do saber feito de experiência e da experiência de saber que nos envia, sabiamente, para estratosferas imponentes, que educam humanamente para uma humildade sem fim e invocam o amor pelo conhecimento, útil e inútil, que ocupa lugar, e a caridade para com a pessoa, que nos faz imaginar com fruto e com cuidado. Falou-se e discutiu-se muito, sem esquecer os ciclos das luzes que periodicamente se abatem sobre a 5 de Outubro, respingando efi ciências inéditas e surpreendentes sobre as notas de rodapé de um sistema que, para conseguir sistematizar necessidades locais e extremas, terá de ser capaz de se auto-suprimir. Mas, melhor do que tudo, mostrou-se que se sabe "Preparar o Futuro" e que há, hoje, em Portugal, uma onda de resistência consciente contra o falado descrédito da Escola, uma vontade plural e bem formada de impedir que se estrague, por antecipação, ignorância e estupidez, o nosso Futuro Comum, traçado, como é, na ardósia macia e frágil da infância e juventude escolar. As provas dadas estão em http://www.educris.com/, e o que ainda não está, sairá em livro, brevemente. Recomendo vivamente este exercício de consulta a todos os nossos políticos, com maior urgência depois da mensagem de intensa trivialidade intelectual com que discutiram o OE. Talvez descubram - e lhes faça bem descobri-lo - como é impossível educar e fazer política educativa sem uma experiência vital de bondade e de dança com o outro que é o ser, humano. Não há vida humana sem sociedade, não há sociedade sem escola, na escola são só as pessoas quem conta. O demais, vem por acréscimo, mas é preciso conhecer para compreendê-lo.
Página 1 da Rádio Renascença
Cristina Sá Carvalho
Webmaster|2010-02-03|13:42:31




