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Outrolhar

Um bom amigo

"É com grande pesar que informo todos os docentes de Educação Moral e Religiosa Católica que faleceu no dia 1 de Setembro em Lisboa, D. Tomaz Pedro Barbosa da Silva Nunes, Bispo auxiliar do Patriarcado.

Muitos de vós conheceram-no como Director do SDER e partilharam com ele o sonho e a paixão pela educação cristã. Convosco ajudou a dignificar a escola como espaço de formação para a vida e para a cidadania. Lutou incansavelmente: como docente, como responsável pelo SDER e, nos últimos anos, como presidente da Comissão Episcopal da Educação Cristã, por uma escola verdadeiramente livre e ao serviço da pessoa humana. Uma escola preocupada com a educação integral dos alunos, alicerçada nos valores humanos e cristãos que sempre defendeu com o seu testemunho de vida. Lutador incansável pelos direitos da disciplina e dos docentes de Educação Moral e Religiosa Católica, travou convosco e por vós, muitas batalhas contra aqueles que tudo fizeram, e continuam a fazer, para erradicar a disciplina do ensino público.

Nesta hora de tristeza, lembro com saudade, o Bispo e o amigo, que sempre com um sorriso me recebia quando a ele recorria para pedir um conselho sobre a gestão do secretariado ou sobre questões pessoais. Aprendi com ele a ser director do SDER e foi com ele que partilhei as alegrias e as tristezas deste lugar.

Devemos-lhe todos muito. Mas, mais do que lhe dizer obrigado por tudo o que fez em prol da educação cristã, nesta hora brutal que a todos colheu de surpresa, agradecemos-lhe o testemunho cristão duma vida dedicada ao serviço da Igreja e a amizade sincera. Não esquecemos o sorriso franco e acolhedor, as palavras carregadas de esperança e optimismo, que tantas vezes nos ajudaram a enfrentar a vida como um desafio a vencer.

Estamos tristes mas não derrotados. Sabemos em quem pôs a sua confiança. Sabemos a quem entregou a sua vida e sua missão como pastor. E, se a sua morte nos entristece, conforta-nos a certeza que tantas vezes nos testemunhou: Eu sou a ressurreição e a vida. Quem crê em mim, ainda que tenha morrido viverá.

Padre Paulo Malícia

 

 


“O Papa da Amizade”

 Por Tito Romeu, docente de EMRC da Diocese do Algarve

Por ser cristão e compreender que a visita de um Papa ao nosso país se traduz num acontecimento extraordinário, tanto para a Igreja Portuguesa como para quase todos, resolvi colocar por escrito a importância da sua vinda até nós.

A ideia de muitas pessoas, inclusive a minha, era de que estava para vir um Papa a Portugal muito marcado pelos tempos de quando era Prefeito para a Doutrina da Fé. Portanto um grande teólogo, filósofo e músico mas também uma  figura rígida, fria e austera.

Contudo a sua visita vem deitar por terra qualquer estereótipo que se poderia ter sobre o Papa Bento XVI.

E a sua mensagem começa em plena viagem de Roma-Lisboa, ao dizer com toda a verdade e clareza que a Igreja tem pecados e que quem os comete são pessoas ligadas a ela, necessitando por isso de uma purificação profunda.

Depois as suas primeiras palavras, já no aeroporto  de Figo Maduro em Lisboa, começaram por desvendar a sua intelectualidade, mas, ao mesmo tempo, a sensibilidade que demonstrou quando disse que vinha para falar a todos (sem excepção, diga-se, cristãos e não cristãos)e também se referiu a Portugal como pátria amiga.

Como tal, considero Bento XVI o Papa da Amizade porque quase sempre em todos os seus discursos fez questão de fazer referência à amizade, ao amor que os cristãos jovens e adultos devem ter para com Cristo e a Igreja.

Em Lisboa, a celebração do Terreiro do Paço é marcada pelo seu belo discurso onde menciona a importância que Portugal e em especial a cidade de Lisboa tiveram na evangelização e dilatação da Palavra de Deus, pedindo que continuemos a espalhar essa mesma Palavra de Deus anunciada por tantos santos portugueses.

Bento XVI demonstrou  igualmente um afecto muito grande pela juventude e o seu à-vontade no pequeno discurso que fez aos jovens nessa noite deixou-nos claramente a ideia de que o Papa se preocupa com a juventude; que o Papa nutre um enorme carinho pelos jovens; que o Papa quer estar com os jovens.

A sua simplicidade continuou quando rompeu com o protocolo de estado e se deslocou em direcção a umas crianças. Mais uma vez é-nos demonstrada a sua amizade pelos que o vêm ver, por aqueles que estiveram horas a fio à sua espera e com esperança de um pequeno gesto da sua parte, como um aceno, um olhar, um sorriso, um cumprimento,...

No encontro com o mundo da cultura, as suas palavras foram de uma beleza encantadora, referindo que a cultura foi ao longo dos tempos marcada pelo Cristianismo. De seguida admitiu que a Igreja necessita de se actualizar e de continuar a proclamar a verdade no mundo da cultura. Fez igualmente referência à alma portuguesa. E cito as palavras de Sua Santidade no discurso que proferiu neste mesmo encontro:

" Prezados amigos, há toda uma aprendizagem a fazer quanto à forma de a Igreja estar no mundo, levando a sociedade a perceber que, proclamando a verdade, é um serviço que a Igreja presta à sociedade, abrindo horizontes novos de futuro, de grandeza e dignidade."

Fátima é, sem dúvida, o momento alto desta viagem de Bento XVI. Ele, ao ter afirmado que é um peregrino de Fátima, colocou diante de Nossa Senhora todos os problemas do mundo e o sofrimento em que a Igreja se encontra mergulhada. Foram momentos intensos de entrega pessoal a Nossa Senhora.

 Mais tarde pede a todos os cristãos que não tenham medo de falarem de Deus, de se assumirem como crentes e de apresentarem sem qualquer vergonha os sinais da Fé.

Depois, já na recitação do Rosário, Bento XVI mostra uma vez mais um gesto belo e de profunda comunhão para com todos os cristão ali presentes. Fez questão de recitar o rosário por meio do terço que lhe fora oferecido pelo bispo de Leiria-Fátima, D. António Marto.

Bento XVI na homilia do 13 de Maio mostra mais uma vez que a humanidade está em sofrimento e precisa da bênção de Nossa Senhora. Ele que se encontra ali aos seus pés como um simples peregrino juntamente com os demais.

O Papa veio a Fátima rezar por toda a humanidade e de certa forma rezar pela Igreja Católica face aos acontecimentos recentes.

É deste modo que refere que a missão de Fátima encontra-se por concluir. Ou seja, há muito sofrimento e miséria que só é ultrapassável com muito amor e fraternidade.

Relativamente ao encontro que teve com a pastoral Socio-Caritativa, Bento XVI relembra a necessidade de protegermos a Família contra os atentados como o aborto e o casamento entre pessoas do mesmo sexo.

O Papa também quis fazer uma referência positiva do bom trabalho que a Igreja realiza nas diversas valências tais como as actividades educativas e caritativas, pedindo que as mesmas "sejam completadas com projectos de liberdade que promovam o ser humano, na busca da fraternidade universal".

No encontro com os Bispos portugueses, o Papa Bento XVI lamenta os cristãos que se envergonham de testemunhar Cristo, nas várias áreas da sociedade, político, económico e da comunicação. Pede ainda que haja um laicado mais maduro capaz de enfrentar as dificuldades.

O Papa pediu ainda aos bispos portugueses que promovam "uma cultura e uma espiritualidade de caridade e de paz".

Bento XVI agradeceu também a "determinação" com que os Bispos de Portugal o acompanham num momento em que "o Papa precisa de abrir-se ao mistério da Cruz, abraçando-a como única esperança".

Na homilia feita pelo santo padre na cidade do Porto, reforça mais uma vez a necessidade dos cristãos serem missionários de Cristo neste mundo tão degradado.

Bento XVI diz ainda que "nestes últimos anos, alterou-se o quadro antropológico, cultural, social e religioso da humanidade; hoje a Igreja é chamada a enfrentar desafios novos e está pronta a dialogar com culturas e religiões diversas, procurando construir juntamente com cada pessoa de boa vontade a pacífica convivência dos povos."

Portanto é preciso rasgar com tempos antigos e debater novas questões de carácter tão profundo para a Igreja como para a sociedade em geral.

Finalizo o meu pensamento afirmando de modo muito honesto que a imagem que as pessoas tinham do Papa foi-se alterando ao longo desta visita de uma forma positiva e, diria de uma forma muito profunda.

Bento XVI conseguiu conquistar os corações dos fiéis.

Os cristãos começaram a entender Bento XVI como o Papa que está próximo, que sorri, que é amigo e gentil.

Professor Tito Romeu


Discurso do Santo Padre no Encontro com o Mundo da Cultura

O Santo Padre, Papa Bento XVI reuniu-se hoje no Centro Cultural de Belém com personalidades portuguesas do Mundo da cultura e das artes.

Disponibilizamos o discurso de Sua Santidade o Papa Bento XVI

ENCONTRO COM O MUNDO DA CULTURA
CENTRO CULTURAL DE BELÉM
12 MAIO 2010
DISCURSO DO SANTO PADRE

Venerados Irmãos no Episcopado,

Distintas Autoridades,

Ilustres Cultores do Pensamento, da Ciência e da Arte,

Queridos amigos,

Sinto grande alegria em ver aqui reunido o conjunto multiforme da cultura portuguesa, que vós tão dignamente representais: Mulheres e homens empenhados na pesquisa e edificação dos vários saberes. A todos testemunho a mais alta amizade e consideração, reconhecendo a importância do que fazem e do que são. Às prioridades nacionais do mundo da cultura, com benemérito incentivo das mesmas, pensa o Governo, aqui representado pela Senhora Ministra da Cultura, para quem vai a minha deferente e grata saudação. Obrigado a quantos tornaram possível este nosso encontro, nomeadamente à Comissão Episcopal da Cultura com o seu Presidente, Dom Manuel Clemente, a quem agradeço as expressões de cordial acolhimento e a apresentação da realidade polifónica da cultura portuguesa, aqui representada por alguns dos seus melhores protagonistas, de cujos sentimentos e expectativas se fez porta-voz o cineasta Manoel de Oliveira, de veneranda idade e carreira, a quem saúdo com admiração e afecto juntamente com vivo reconhecimento pelas palavras que me dirigiu, deixando transparecer ânsias e disposições da alma portuguesa no meio das turbulências da sociedade actual.

De facto, a cultura reflecte hoje uma «tensão», que por vezes toma formas de «conflito», entre o presente e a tradição. A dinâmica da sociedade absolutiza o presente, isolando-o do património cultural do passado e sem a intenção de delinear um futuro. Mas uma tal valorização do «presente» como fonte inspiradora do sentido da vida, individual e em sociedade, confronta-se com a forte tradição cultural do Povo Português, muito marcada pela milenária influência do cristianismo, com um sentido de responsabilidade global, afirmada na aventura dos Descobrimentos e no entusiasmo missionário, partilhando o dom da fé com outros povos. O ideal cristão da universalidade e da fraternidade inspiravam esta aventura comum, embora a influência do iluminismo e do laicismo se tivesse feito sentir também. A referida tradição originou aquilo a que podemos chamar uma «sabedoria», isto é, um sentido da vida e da história, de que fazia parte um universo ético e um «ideal» a cumprir por Portugal, que sempre procurou relacionar-se com o resto do mundo.

A Igreja aparece como a grande defensora de uma sã e alta tradição, cujo rico contributo coloca ao serviço da sociedade; esta continua a respeitar e a apreciar o seu serviço ao bem comum, mas afasta-se da referida «sabedoria» que faz parte do seu património. Este «conflito» entre a tradição e o presente exprime-se na crise da verdade, pois só esta pode orientar e traçar o rumo de uma existência realizada, como indivíduo e como povo. De facto, um povo, que deixa de saber qual é a sua verdade, fica perdido nos labirintos do tempo e da história, sem valores claramente definidos, sem objectivos grandiosos claramente enunciados. Prezados amigos, há toda uma aprendizagem a fazer quanto à forma de a Igreja estar no mundo, levando a sociedade a perceber que, proclamando a verdade, é um serviço que a Igreja presta à sociedade, abrindo horizontes novos de

futuro, de grandeza e dignidade. Com efeito, a Igreja «tem uma missão ao serviço da verdade para cumprir, em todo o tempo e contingência, a favor de uma sociedade à medida do ser humano, da sua dignidade, da sua vocação. [...] A fidelidade à pessoa humana exige a fidelidade à verdade, a única que é garantia de liberdade (cf. Jo 8, 32) e da possibilidade dum desenvolvimento humano integral. É por isso que a Igreja a procura, anuncia incansavelmente e reconhece em todo o lado onde a mesma se apresente. Para a Igreja, esta missão ao serviço da verdade é irrenunciável» (Bento XVI, Enc. Caritas in veritate, 9). Para uma sociedade composta na sua maioria por católicos e cuja cultura foi profundamente marcada pelo cristianismo, é dramático tentar encontrar a verdade sem ser em Jesus Cristo. Para nós, cristãos, a Verdade é divina; é o «Logos» eterno, que ganhou expressão humana em Jesus Cristo, que pôde afirmar com objectividade: «Eu sou a verdade» (Jo 14, 6). A convivência da Igreja, na sua adesão firme ao carácter perene da verdade, com o respeito por outras «verdades» ou com a verdade dos outros é uma aprendizagem que a própria Igreja está a fazer. Nesse respeito dialogante, podem abrir-se novas portas para a comunicação da verdade.

«A Igreja - escrevia o Papa Paulo VI - deve entrar em diálogo com o mundo em que vive. A Igreja faz-se palavra, a Igreja torna-se mensagem, a Igreja faz-se diálogo» (Enc. Ecclesiam suam, 67). De facto, o diálogo sem ambiguidades e respeitoso das partes nele envolvidas é hoje uma prioridade no mundo, à qual a Igreja não se subtrai. Disso mesmo dá testemunho a presença da Santa Sé em diversos organismos internacionais, nomeadamente no Centro Norte-Sul do Conselho da Europa instituído há 20 anos aqui em Lisboa, tendo como pedra angular o diálogo intercultural a fim de promover a cooperação entre a Europa, o Sul do Mediterrâneo e a África e construir uma cidadania mundial fundada sobre os direitos humanos e as responsabilidades dos cidadãos, independentemente da própria origem étnica e adesão política, e respeitadora das crenças religiosas. Constatada a diversidade cultural, é preciso fazer com que as pessoas não só aceitem a existência da cultura do outro, mas aspirem também a receber um enriquecimento da mesma e a dar-lhe aquilo que se possui de bem, de verdade e de beleza.

Esta é uma hora que reclama o melhor das nossas forças, audácia profética, capacidade renovada de «novos mundos ao mundo ir mostrando», como diria o vosso Poeta nacional (Luís de Camões, Os Lusíades, II, 45). Vós, obreiros da cultura em todas as suas formas, fazedores do pensamento e da opinião, «tendes, graças ao vosso talento, a possibilidade de falar ao coração da humanidade, de tocar a sensibilidade individual e colectiva, de suscitar sonhos e esperanças, de ampliar os horizontes do conhecimento e do empenho humano. [...] E não tenhais medo de vos confrontar com a fonte primeira e última da beleza, de dialogar com os crentes, com quem, como vós, se sente peregrino no mundo e na história rumo à Beleza infinita» (Discurso, no meu encontro com os Artistas, 21/XI/2009).

Foi para «pôr o mundo moderno em contacto com as energias vivificadoras e perenes do Evangelho» (João XXIII, Const. ap. Humanae salutis, 3) que se fez o Concílio Vaticano II, no qual a Igreja, a partir de uma renovada consciência da tradição católica, assume e discerne, transfigura e transcende as críticas que estão na base das forças que caracterizaram a modernidade, ou seja, a Reforma e o Iluminismo. Assim a Igreja acolhia e recriava por si mesma, o melhor das instâncias da modernidade, por um lado, superando-as e, por outro, evitando os seus erros e becos sem saída. O evento conciliar

colocou as premissas de uma autêntica renovação católica e de uma nova civilização - a «civilização do amor» - como serviço evangélico ao homem e à sociedade.

Caros amigos, a Igreja sente como sua missão prioritária, na cultura actual, manter desperta a busca da verdade e, consequentemente, de Deus; levar as pessoas a olharem para além das coisas penúltimas e porem-se à procura das últimas. Convido-vos a aprofundar o conhecimento de Deus tal como Ele Se revelou em Jesus Cristo para a nossa total realização. Fazei coisas belas, mas sobretudo tornai as vossas vidas lugares de beleza. Interceda por vós Santa Maria de Belém, venerada há séculos pelos navegadores do oceano e hoje pelos navegantes do Bem, da Verdade e da Beleza

Acompanhe toda a visita do Papa Bento XVI a Portugal em www.bentoxviportugal.pt

Webmaster|2010-05-12|16:08:29


Lounge educativo

Por Bento Oliveira
docente e EMRC

O Google translater diz-nos que lounge significa ociosidade, descanso, lazer, sofá (substantivos), e/ou descansar, espreguiçar-se, recostar-se, vaguear, (verbos).

Comecemos pelos verbos. As aulas de EMRC são momentos em que os alunos e os professores podem vaguear pelos vários saberes, pelas várias culturas, pela cultura cristã, pelas suas caixinhas de saberes. São momentos de conexões. São tempos em que os alunos gostam de se recostar nos "seus" saberes e espreguiçar-se nas suas afirmações. Convicções. Certezas. Damo-nos ao luxo de nos dedicarmos ao ócio, à inutilidade, ao prazer. Ao prazer de ver filmes que despertam em nós a imaginação; à inutilidade de pensar na vida: quem sou? Quem sou eu verdadeiramente; em Jesus Cristo, o modelo proposto; dedicamo-nos ao ócio de fazer trabalhos enquanto ouvimos música na sala; dedicamo-nos a pedir aos alunos que encontrem sentido(s) no que vêem, no que ouvem, no que experienciam, no que sentem.

Fico descansado, na grande maioria das vezes, no final de cada ano. O que por vezes parece uma perca de tempo, uma inutilidade, um entertenimento cultural, afinal são momentos em que os alunos, muitos sem consciência disso, confrontam a sua vida com a palavra de Deus, com a doutrina social da igreja, questionam e questionam-se, etc...

Passemos agora aos três substantivos: ociosidade, lazer, sofá.

O sofá da EMRC é a a síntese entre fé e cultura, entre fé e vida. O ócio e o lazer da EMRC é o facto de ser tempo de integração, de enriquecimento cultural, pessoal, social e, até, e sobretudo, um tempo afectivo. Tempo de explicitação da vida interior.

É assim que eu sinto a disciplina de EMRC.


Preparar o Futuro

Com graça e o seu cepticismo anti-cognitivista habitual, Nuno Crato relatou, há dias, no "Expresso", o seu entusiástico uso das novas tecnologias e a constatação controlada de como a sua introdução na sala de aula não produz mais aprendizagem. De facto, como múltiplos estudos mostram, um "Magalhães" é só uma caneta superlativamente gira e um projector de imagem ou um pau de giz mais limpo. Para que os alunos aprendam melhor aquilo que faz a diferença é, realmente, que o professor ensine mais: mais tempo, mais organizadamente, com mais clareza discursiva, com maior segurança e tessitura de pensamento, com uma visão mais global e estruturada da sua disciplina, com um treino mais eficaz e consciente do infindável ciclo planificação avaliação. E, se à técnica, se unir a arte que faz do professor um Mestre, os alunos ainda beneficiarão do bónus extra que são as armas da motivação, aquele encantamento especial que resulta de um misto de paixão pela matéria e o gosto intenso de se dar ao público exigente que são os alunos, base insuperável do docente que marca e nunca se esquece. Desta dramaturgia cintilante e provocadora, que está no centro da relação pedagógica, se falou, tal como prometido, no Fórum "Pensar a Escola". E também de autoridade e responsabilidade, da inultrapassável importância da desprezada cultura geral, do regresso da ciência mentalmente liberta da confusa ditadura da técnica, da filosofia que nos faz gregos, da religião e dos seus símbolos, da matemática sem calculadora, da chave que é a literatura pesada nas portas da densa leveza de ser, da poesia com música e da arte artística que arrebata e faz pensar, do saber feito de experiência e da experiência de saber que nos envia, sabiamente, para estratosferas imponentes, que educam humanamente para uma humildade sem fim e invocam o amor pelo conhecimento, útil e inútil, que ocupa lugar, e a caridade para com a pessoa, que nos faz imaginar com fruto e com cuidado. Falou-se e discutiu-se muito, sem esquecer os ciclos das luzes que periodicamente se abatem sobre a 5 de Outubro, respingando efi ciências inéditas e surpreendentes sobre as notas de rodapé de um sistema que, para conseguir sistematizar necessidades locais e extremas, terá de ser capaz de se auto-suprimir. Mas, melhor do que tudo, mostrou-se que se sabe "Preparar o Futuro" e que há, hoje, em Portugal, uma onda de resistência consciente contra o falado descrédito da Escola, uma vontade plural e bem formada de impedir que se estrague, por antecipação, ignorância e estupidez, o nosso Futuro Comum, traçado, como é, na ardósia macia e frágil da infância e juventude escolar. As provas dadas estão em http://www.educris.com/, e o que ainda não está, sairá em livro, brevemente. Recomendo vivamente este exercício de consulta a todos os nossos políticos, com maior urgência depois da mensagem de intensa trivialidade intelectual com que discutiram o OE. Talvez descubram - e lhes faça bem descobri-lo - como é impossível educar e fazer política educativa sem uma experiência vital de bondade e de dança com o outro que é o ser, humano. Não há vida humana sem sociedade, não há sociedade sem escola, na escola são só as pessoas quem conta. O demais, vem por acréscimo, mas é preciso conhecer para compreendê-lo.

Página 1 da Rádio Renascença
Cristina Sá Carvalho
Webmaster|2010-02-03|13:42:31

Fórum "Pensar a Escola. Preparar o Futuro", sinal de Esperança

Por Bento Oliveira
Responsável pela Pastoral no Colégio Amor de Deus

Terminou o Fórum "Pensar a Escola. Preparar o Futuro" organizado pelo SNEC, Secretariado Nacional da Educação Cristã.

O Fórum proponha-se atingir três objectivos/finalidades: 1. Proporcionar a um conjunto de professores e/ou educadores comprometidos um espaço de reflexão, debate, partilha de experiências e perspectivação do futuro; 2. Alcançar um debate alargado sobre a Escola no nosso país, inserido numa dinâmica de transformação cultural da Europa, apontando para a descoberta de caminhos a percorrer, o reavivar de esperança no futuro e o delinear de compromissos corajosos; 3. Oferecer à sociedade portuguesa, através de uma publicação, os contributos recolhidos nas discussões proporcionadas pelas conferências e pelas propostas dos participantes nos diversos ateliers. Este terceiro objectivo será ainda ultimado. Logo que seja possível será publicado na Revista Pastoral Catequética, do SNEC.

O Fórum foi um tempo de paragem, não de estagnação. Foi também um tempo de refontalização, isto é, se por um lado fomos convidados a ir à fonte, ao cerne da questão da educação, por outro, os vários conferencistas avivaram-nos a memória, colocaram-nos à frente qual a nossa missão, o "segredo" da educação. O "segredo" da educação está na capacidade de auto-superação, desvendar e revelar, na capacidade de amar. Educar é estar com e para a pessoa. Os alunos são o centro da educação. Assim, podemos afirmar a inexistência de um modelo único de educação (multiplicidade positiva) como forma de fazer emergir o potencial de cada um. Entendemos o Projecto Educativo como capacidade de entender o Outro, o Tu, o Meio e a Comunidade.

Esta missão só terá sucesso se houver uma convergência de esforços, de vontades, de políticas, de convergente cooperação Escola/Família/Comunidade (Sociedade). Apetece perguntar: será que é a Escola que está em crise? Não será que a Escola é o rosto visível da crise da família, da crise da sociedade?

O aluno é o centro. É urgente reavivar o triângulo da cooperação Escola/Família/Comunidade. Quem é o responsável? O Estado? A Igreja? As cooperativas? Etc... Diz S. Paulo na sua Carta aos Coríntios, capítulo doze, versículo doze e treze "assim como o corpo é um só e tem muitos membros, e todos os membros do corpo, apesar de numerosos, constituem um só corpo, assim sucede também em Cristo." Escutámos esta leitura na Eucaristia de encerramento do Fórum. Esta unidade na Educação esteve presente no Fórum. Existem várias instituições que se dedicam à educação. Porque a educação é pública, não interessa se a iniciativa é estatal ou privada, o importante é que cooperem, que tenham sempre presente que a educação visa uma vida feliz.

Os compromissos que nos propusemos percorrer são vários e variados e estarão na publicação que se está a ultimar sobre o Fórum. Contudo, comungamos das palavras do Papa Bento XVI, "só uma esperança credível pode ser alma da educação"[1]. Por isso compromisso assumido foi: fazer o que devo, no momento que devo, a quem devo, e do modo que devo. Entenda-se dever como capacidade de deliberar e decidir a cada momento. Comprometemo-nos com a exigência da Escola, com a exigência pessoal.

Por tudo isto afirmamos que o Fórum foi um sinal de esperança para a Educação em Portugal. Da crise[2] apostamos na oportunidade. Como dizia o Cardeal Patriarca D. José Policarpo, "o verdadeiro fundamento da esperança no futuro da escola reside nos milhares de portuguesas e portugueses que consagram a sua vida à escola e à aventura da educação. Num momento em que parecem ter sido superados os conflitos laborais que opuseram o Estado e os docentes, representados pelos sindicatos, voltemo-nos todos para canalizar todas as energias para a tarefa educativa, que é profissão, mas que é, sobretudo, missão e paixão"[3].

 


[1] Bento XVI, Carta à Diocese de Roma, 21 de Janeiro de 2008.

[2] Em mandarim crise escreve-se com dois caracteres, que significam perigo e oportunidade.

[3] D. José Policarpo, Cardeal-Patriarca de Lisboa, A Escola tem futuro? A dinâmica da esperança. Lisboa (conferência pronunciada no Fórum "Pensar a Escola. Preparar o Futuro"), UCP Lisboa, 24 de Janeiro de 2010.


"Pensar a Escola"

Página 1 da Rádio Renascença
Cristina Sá Carvalho

 

Realiza-se no próximo fim-de-semana, nas instalações da sede da Universidade Católica Portuguesa, em Lisboa, o Fórum «Pensar a Escola. Preparar o Futuro».

Trata-se de uma iniciativa da Comissão Episcopal da Educação Cristã, organizada pelo respectivo Secretariado.

Reunindo um grupo experimentado de especialistas com evidente competência técnica e experiência política - Joaquim Azevedo, Isabel Renaud, Guilherme d'Oliveira Martins - a sua assiduidade em acontecimentos similares nunca nos promete mais do mesmo, pois tem-se destacado pelo rigor, pela lúcida procura da verdade, pelo compromisso e pela liberdade e independência de pensamento. A perspectiva europeia estará a cargo de Guy Coq, discípulo de Mounier e um reputado e incómodo filósofo da educação, dotado de uma perspicácia irónica e fenomenal, e jamais rendido às vozes do politicamente correcto.

No entanto, e apesar da relevância das comunicações enunciadas, grande expectativa colocou a organização no trabalho de seminário que é proposto aos próprios participantes, católicos e não católicos, educadores e pais, representantes de associações profissionais ou sindicatos, responsáveis e líderes ou "consumidores" do nosso sistema educativo, dos quais se espera, precisamente, que participem, questionem e se façam ouvir.

O último dia propõe-se trazer-nos densidade crítica, relevância maior, originalidade no pensamento e exemplo de compromisso com o bem comum. Assim, o Cardeal Patriarca de Lisboa falará sobre se a Escola tem, ou não, futuro, e o comentário final cabe a Eduardo Marçal Grilo.

Aos que  estranham as "intromissões" da Igreja na vida pública, recorde-se que tudo o que há de estruturante nos sistemas educativos do mundo ocidental foi pensado, descoberto, experimentado e feito evoluir nas instituições precisamente governadas pela Igreja Católica, tal como, ainda hoje, leva educação e oportunidade de fugir ao ciclo da ignorância/pobreza a todos aqueles quatro cantos do mundo a que muitos intelectuais se dispensam de ir sujar as mãos. Um pouco de História faz-nos sempre ver as coisas em perspectiva e, certamente, ajuda-nos a preparar o futuro, que há-de ser de todos. Mais informações em www.educris.com

 

Webmaster|2010-01-20|09:41:21


2010: Ano Europeu contra a Pobreza

Desde 1983, a UE lança todos os anos uma campanha sob a designação genérica "Ano Europeu", visando atrair a atenção dos governos nacionais para temáticas de natureza social. No dia 22 de Outubro de 2008, o Parlamento Europeu e o Conselho da União Europeia aprovaram uma decisão relativa à instituição do ano 2010 como "Ano Europeu do Combate à Pobreza e à Exclusão Social" (AECPES).

A iniciativa apresenta-se com o objectivo de reafirmar e reforçar o empenho político da UE, manifestado no início da Estratégia de Lisboa, no sentido de tomar medidas com impacte decisivo no que respeita à erradicação da pobreza.

A Agência ECCLESIA apresenta esta iniciativa, com depoimentos de responsáveis da CNIS, da Cáritas e da Rede Europeia Anti-Pobreza/Portugal.

Paulo Neves, da Cáritas da Guarda, considera que "para Portugal, a realização do AECPES cria uma oportunidade única de sensibilização dos mais variados agentes para as questões da pobreza e da exclusão social no sentido de alertar para os seus contornos, não só a nível das suas consequências mas também a nível das suas causas".

"Além disso, poderá permitir questionar estratégias implementadas sem grandes resultados e delinear novas estratégias capazes de atenuar ou erradicar alguns dos problemas diagnosticados", acrescenta.

O Ano Europeu de 2010 pretende chegar aos cidadãos da UE e a todos os interve-nientes públicos, sociais e económicos. São quatro os seus objectivos específicos:

 Reconhecer o direito das pessoas em situação de pobreza e exclusão social a viver com dignidade e a participar activamente na sociedade.

- Reforçar a adesão do público às políticas e acções de inclusão social, sublinhando a responsabilidade de cada um na resolução do problema da pobreza e da marginalização.

- Assegurar uma maior coesão da sociedade, onde haja a certeza de que todos beneficiam com a erradicação da pobreza.

- Mobilizar todos os intervenientes, já que, para haver progressos tangíveis, é necessário um esforço continuado a todos os níveis de governação.

A pobreza é normalmente associada aos países em vias de desenvolvimento nos quais a subnutrição, a fome e a falta de água limpa e potável são desafios quotidianos. Contudo, a Europa também é afectada pela pobreza e pela exclusão social, onde apesar de estes problemas poderem não ser tão gritantes, são ainda assim inaceitáveis. Quase um quinto da população da UE não tem os meios necessários para satisfazer as suas necessidades mais básicas.

Um valor fundamental da União Europeia é a solidariedade, particularmente importante em tempos de crise. Ao longo de 2010, os responsáveis comunitários propõem-se "encorajar a participação e o compromisso político de todos os segmentos da sociedade para participarem na luta contra a pobreza e a exclusão social, desde o nível europeu ao nível local, no sector público e no privado".

Neste Ano, há ainda a intenção de "dar voz às preocupações e necessidades de todos quanto atravessam situações de pobreza e de exclusão social" e "dar a mão a organizações da sociedade civil e a organizações não-governamentais na área da luta contra a pobreza e a exclusão social".

Sandra Araújo, coordenadora técnica da secção portuguesa da Rede Europeia Anti-Pobreza, defende que "é preciso que a riqueza seja bem distribuída, e esse é que é que o problema do modelo social europeu. No nosso país, o nível das desigualdades sociais - um dos maiores da UE - é muito significativo".

"Também sabemos que Portugal tem uma taxa elevada de trabalhadores pobres: apesar de terem emprego, muitas pessoas não saem debaixo da linha de pobreza", lamenta.

Portugal

O Governo português nomeou um coordenador nacional - o presidente do conselho directivo do Instituto da Segurança Social - como responsável pela definição do programa nacional para o AECPES, cujas iniciativas a prosseguir "deverão contribuir de forma eficaz para reconhecer o direito fundamental das pessoas em situação de pobreza e exclusão social a viver com dignidade e a participar activamente na sociedade".

Para Portugal, a realização do Ano Europeu cria uma oportunidade para sensibilizar a opinião pública para as questões da pobreza e da exclusão social e fazer passar a mensagem de que a pobreza e a exclusão são consequência de um modelo de desenvolvimento injusto. Assim, procura-se combater a noção de que o combate à pobreza é um custo para a sociedade e reafirmar a importância da responsabilidade colectiva. "Contribuir para um Portugal mais justo e mais solidário corresponde a um compromisso e a um objectivo estruturante, que implica a participação de todos", refere o Instituto da Segurança Social.

O Programa Nacional do AECPES estrutura-se em torno de quatro eixos estratégicos: Contribuir para a redução da pobreza (e prevenir riscos de exclusão); contribuir para a compreensão e visibilidade do fenómeno da pobreza e seu carácter multidimensional; responsabilizar e mobilizar o conjunto da sociedade no esforço da erradicação das situações de pobreza e exclusão; assumir a pobreza como um problema de todos os países, "eliminando fronteiras".

O terceiro eixo, em particular, desenvolve-se em articulação com organizações não governamentais, IPSS e entidades equiparadas, autarquias e entidades de direito privado com fins lucrativos ou sem fins lucrativos.

Tem como objectivos estratégicos "promover a coesão através da sensibilização do público quanto aos benefícios para todos de uma sociedade mais justa e solidária" e "fomentar uma sociedade que promove e sustenta a qualidade de vida incluindo o bem-estar social, particularmente dos mais vulneráveis, e a igualdade de oportunidades para todos".

Procura também "fomentar a sensibilização e o empenho de todos os cidadãos no combate à pobreza e à exclusão social" e "fomentar a participação das pessoas com experiência directa ou indirecta dos fenómenos de pobreza e exclusão social".

A Confederação Nacional das Instituições de Solidariedade (CNIS) pretende que os beneficiários dos subsídios estatais não se mantenham numa situação de dependência permanente face a essas subvenções.

Em entrevista à Agência ECCLESIA, o presidente da CNIS, Pe. Lino Maia, afirmou que esta plataforma pretende trabalhar com as pessoas abrangidas pelo Rendimento Social de Inserção, para que "elas próprias, com o apoio de instituições, de empresas e da Associação Nacional do Microcrédito, possam criar formas de autonomia".

"A pessoa é o caminho da Igreja e é a única razão de ser de uma sociedade, pelo que temos de apostar claramente na sua promoção, desenvolvimento e felicidade", assinalou o sacerdote. O Pe. Lino Maia considerou que a erradicação da pobreza só será possível se ela for "um desígnio nacional".

Webmaster|2010-01-05|18:19:53|Agência Ecclesia


O Casamento dos Homosexuais

 
Maria José Nogueira Pinto
Jurista
19 Fevereiro 2009

Esta questão tem aspectos muito importantes e outros que pouco interessam. O aspecto jurídico, por exemplo, é a mais pobre das abordagens porque, como se sabe, o casamento e a família são realidades anteriores ao Estado e a sua relevância não advém de sobre elas se ter legislado, pelo contrário, legislou-se porque essa relevância social, que já existia, foi reconhecida pelo legislador. O casamento e a família são o que são, o que sempre foram ao longo dos tempos, só que agora pessoas do mesmo sexo querem casar-se. Pensar que para isso basta alterar a lei é uma falácia, já que a lei alterada não muda o casamento nem a família, mas cria uma outra realidade que não é, por natureza, nem uma coisa nem outra.

Não vale a pena dizer que uma família é aquilo que cada um quiser (eu, o meu cão e o meu canário?); nem contornar a bicuda questão da adopção, na qual o melhor interesse da criança sempre se sobreporá a construções teórico-jurídicas de duvidosa sustentabilidade; ou minimizar esse efeito, comparando esta adopção e os seus riscos com a romanceada situação das crianças institucionalizadas - sós, famintas, negligenciadas - como se fossem cães num canil. Nem fugir, e percebe-se bem porquê, ao ponto crítico da poligamia. Todos sabem que isto é assim.

É certo que pessoas do mesmo sexo vivem em união de facto e não há que escamotear essa realidade ou desproteger situações que merecem protecção jurídica. Foi para acautelar estas situações que se aprovou uma lei. Recordo-me bem, pois à época era deputada e participei nos trabalhos parlamentares que conduziram à sua aprovação. Afinal essa lei não serviu para nada, como se vê, porque para os que então a queriam o casamento surge, agora, como a única resposta aceitável.

Então, porque querem casar os homossexuais? Esta, sim, é que me parece a primeira questão digna de meditação. Num tempo em que cada vez menos casais heterossexuais se casam, em que aumenta o número de divórcios e é consagrada a união de facto, este desiderato parece estranho. Nos países (poucos) em que a lei foi aprovada verificou-se que o número de casais homossexuais que contraíram matrimónio foi diminuto. Porquê? Talvez que, uma vez aprovada, a lei tivesse deixado de ser importante para uma parte significativa desses homossexuais; talvez que o importante fosse a lei e não o casamento, tal como, aliás, se passou com as uniões de facto.

Então, porque querem tanto a lei os homossexuais? Esta é a segunda e a mais importante das questões que o tema levanta: a simbologia. Na busca de um estatuto de respeitabilidade, os homossexuais exigem um símbolo suficientemente forte para afastar os fantasmas da diferença, da discriminação implícita, de uma situação apenas consentida, do medo da homofobia, da suposição do desprezo, da condescendência hipócrita. Só a institucionalização por via do legislador de uma igualdade de acesso ao casamento, destruindo os pilares fundamentais e distintivos desta realidade antropológica e social, criando uma ficção onde todos são igualmente incluídos, os pode securizar.

Parece-me desmesurado e, ao mesmo tempo, contraditoriamente patético. Obriga-me a pensar que no fundo de tudo isto há muita humilhação, muita insegurança e decerto muita dor. E os porta-vozes dos homossexuais, numa espécie de autoflagelação exibicionista, têm contribuído para esta humilhação, levando-me a duvidar, em alguns casos, sobre o que é que realmente os move...

Se a lei for aprovada, assistiremos a alguns casamentos que, pela sua novidade, serão objecto de uma forte mediatização, mas a questão de fundo fica por resolver. Para ser franca, e tal como está colocado, o problema não tem solução. Porque aquilo que é diferente não pode ser igual. Nem simbolicamente e menos ainda se o símbolo é usurpado.

 

Publicado no DN de 19 de Fevereiro de 2009

 

 


Qualidade Interior

António Valério
http://www.essejota.net/

Os começos são um tempo fascinante. Parece óbvio dizer que em cada início se escondem oportunidades de recuperar tempos perdidos e espaços descuidados. No fundo, o início é marcado por novos caminhos mas, ao mesmo tempo, é um regresso a coisas antigas. Fazemos o mesmo que normalmente fazíamos, mas encontramos uma energia que nos desperta para o compromisso.

O desafio para este mês inicial do ano académico ou de trabalho é precisamente preencher o nosso espaço de coisas importantes. Para isso, são necessárias duas atitudes: a de saber o que verdadeiramente interessa e a de querer fazer descer a vida à nossa profundidade.

A vida é uma teia de acontecimentos e desejos, que nos movem cada dia para paisagens inesperadas. Contudo, é muito importante termos claro aquilo que não podemos deixar para trás, os nossos tempos e lugares de paragem e sabor. Cada um encontrará aquilo que significa este tempo ou este espaço: oração, tempo para conversas mais pessoais, dedicação a alguém em particular, ler, escrever, etc. Se lhe dedicarmos tempo e espaço cada dia, acabamos por voltar ao entusiasmo, encontramo-nos numa espécie de repetição rítmica dos nossos desejos profundos.

A segunda atitude de fundo é aquela de podermos descer à nossa profundidade e tomarmos o pulso dos acontecimentos. É muito saudável termos tempo e espaço para saborear o que acontece, ajuda-nos a falar em primeira pessoa nos acontecimentos de cada dia, sem nos deixarmos arrastar pela pressa, pelo stress, ou pela velocidade do que vai acontecendo. Assim, em momentos de solidão e silêncio, deixamos falar aquilo que é mais importante: a qualidade interior do que somos e do que fazemos.

No início do meu ano, que aspectos são essenciais na vida do dia-a-dia? Onde é que antes perdi o meu tempo, para que hoje o possa encontrar? Sinto necessidade do silêncio dedicado à profundidade do meu dia? Sou capaz de ter este tempo?      


"Um novo Ano Lectivo"

Por Elisa Urbano

Um novo ano lectivo chegou. E é mesmo novo. Cansados do "velho", restabelecidos por um tempo de paragem que é sempre tempo de reflexão e avaliação, pais professores e alunos, atravessam os portões da escola com vontade que seja diferente. Melhor.

Mal atravessei os portões da minha escola, senti este clima de esperança, de vontade de construir.

No ano lectivo anterior, todos sentimos as dificuldades que as escolas atravessaram. O ambiente humano degradou-se e com ele toda a missão da escola foi posta em causa. Ficou para trás um ano lectivo muito difícil. Regressa-se com esperança de construir uma escola onde todos e cada um se sinta acolhido, "em casa", sem conflitos que só desvirtuam a missão, fazem perder o norte, esquecer o que é essencial. Este ano, muitos professores mudaram de escola, se calhar, uma oportunidade de se construírem novas relações, de entrar "ar fresco".

Eu senti um "já chega" quando entrei na escola. Senti esperança. Senti que a vontade de aprender e o gosto de educar se voltaram a encontrar com alegria. São a condição essencial para que "a escola cumpra, efectivamente, a missão a que está destinada - a formação integral e o desenvolvimento harmonioso das nossas crianças e jovens".(Carta da CEP sobre a Escola em Portugal, 2008).

Lá estava o sorriso dos alunos que corriam a procurar o seu nome nas turmas, espetando os dedos nas vitrinas, gritando com alegria para o amigo ao lado: Estás na minha turma! E faz-se festa de encontro entre adultos, adolescentes e crianças, comenta-se o "cresceste muito nestas férias". Mais adiante, na sala-dos-professores dão-se abraços, fazem-se vénias uns aos outros, nada de beijos, é preciso prevenir a Gripe! Brinca-se com a situação, contam-se as aventuras vividas nas férias.

Nós, os professores de Educação Moral e Religiosa Católica, iniciamos este ano vendo restabelecida nas escolas a igualdade de direitos em relação aos outros professores, com novos manuais nas mãos e a continuação da implementação de um novo programa.

É verdade que nem tudo tem sido fácil. A possibilidade legal de os professores de EMRC do 2º e 3º ciclo leccionarem no 1º, não teve nas escolas a adesão que esperávamos. Sentimos que havia muito receio, talvez devido à possibilidade de voltarem a surgir dificuldades legais à leccionação da EMRC, com graves prejuízos para as escolas, como aconteceu em tempos não muito longínquos...Torna-se urgente uma regulamentação da Concordata de 2004, nomeadamente no que se refere ao estatuto da disciplina e do professor de EMRC. É urgente esta estabilidade que a legislação pode assegurar, não ficando a implementação da disciplina na dependência de Despachos que revogam Despachos, ou da boa, ou menos boa, vontade das Direcções das Escolas. 

Mas tudo isto nos responsabiliza, nos desafia. É a hora de continuarmos a ser bons profissionais, assumindo um lugar único na formação integral dos alunos, defendendo uma visão humanista do desenvolvimento. Hoje, não é possível imaginar a escola fechada em quatro paredes mas aberta às instituições sociais da comunidade que a envolve sem os quais a verdadeira educação para todos, ao longo da vida e com a vida, não acontece, comprometendo o futuro da cidade. Também aqui o professor de EMRC, sensível a uma educação de cariz humanista, tem um lugar na escola como elemento privilegiado dinamizador de diálogo entre a escola e os diversos actores que envolvem a comunidade educativa, em especial a família.

Os professores de EMRC têm consciência da sua missão de evangelizadores. Temos razões para olharmos para este ano lectivo com esperança. Recordo as palavras de Bento XVI na carta à Diocese de Roma em Janeiro de 2008: "Só uma esperança credível pode ser a alma da educação, como de toda a vida". É este o primeiro testemunho que podemos e devemos dar nas escolas.

As dificuldades são sempre desafios, como as crises são sempre ocasião de crescimento.

A nossa resposta tem de ser de "serviço" e "compromisso" como refere a nota da CEEP para a Semana da Educação. Como desafios para este ano, surge o diálogo com as estruturas da Igreja, a formação permanente, a reflexão séria sobre o perfil do professor de EMRC nas escolas de hoje, muito em especial, no que se refere à comunhão eclesial e, como prioridade, uma maior preocupação com a vida espiritual. Como refere o nosso Papa na sua última encíclica, Cáritas in Veritate: " O desenvolvimento tem necessidade de cristãos com os braços levantados para Deus em atitude de oração". Sem esta atitude ninguém dá testemunho da verdadeira alegria que educa para a fé e garante o verdadeiro crescimento.

Acredito nos pais, professores, alunos e todos os que estão envolvidos na educação. A sua boa vontade e criatividade dão a certeza de que 2009/2010 irá ser um ano lectivo de eleição!

Elisa Urbano